Jovem rico: salvação pelas obras?

A história do “jovem rico” é uma das mais conhecidas dos evangelhos. Ela começa assim:

Eis que alguém se aproximou de Jesus e Lhe perguntou: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?”

Respondeu-lhe Jesus: “Por que você Me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom. Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos” (Mt 19:16-17).

Nesse texto, Jesus não estaria ensinando a salvação pelas obras (isto é, pela obediência)? Se for assim, Ele está contradizendo outros textos claros da Palavra de Deus, que ensinam que a salvação é pela graça somente (Rm 3:28; 11:6; Gl 2:16, 21; Ef 2:8-9; Fp 3:9).

Vamos analisar mais atentamente a passagem e seu contexto.

“Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?” Aqui a ênfase está sobre o fazer, ou seja, a vida eterna seria uma recompensa a um ato (o que é uma noção legalista).

Jesus responde: “Por que você Me pergunta sobre o que é bom?” (a pergunta era estranha porque os judeus já tinham o Antigo Testamento). “Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos.” O jovem pergunta “quais”, e Jesus cita os Dez Mandamentos!

A resposta de Jesus era prevista na Lei de Moisés: “Obedeçam aos Meus decretos e ordenanças, pois o homem que os praticar viverá por eles. Eu sou o Senhor” (Lv 18:5-6). Como Paulo mostra depois em Gálatas 3 (especificamente o v. 12), citando esse texto, o homem que obedecer de forma perfeita os mandamentos de Deus vive! O raciocínio é: se pecado é quebra da lei (1Jo 3:4) e se o salário do pecado é a morte (Rm 6:23), quem obedece à lei perfeitamente não recebe o salário da desobediência!

Todavia, essa via se mostra impossível ao homem. A continuação da história é que é mais interessante:

Disse-lhe o jovem: “A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda?” (v. 20-21).

Jesus respondeu:

“Se você quer ser perfeito [em grego, teleios, completo], vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-Me.” Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas (21-23).

A história mostra a impossibilidade de ser teleios (perfeito, completo) com relação aos mandamentos de Deus! Jesus mostrou claramente que, por esse critério, era impossível a salvação do homem. Citando um ditado judeu da época, o Senhor disse:

Digo-lhes a verdade: dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. E lhes digo ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus (v. 23-24).

Quando os judeus queriam falar de uma impossibilidade, diziam: “É mais fácil um elefante passar no fundo de uma agulha” (Talmude, Berak 55b). Em outras palavras: é impossível ao ser humano se salvar!

Os discípulos entenderam tão bem as palavras de Jesus que perguntaram em seguida: “Neste caso, quem pode ser salvo?” (v. 25). Afinal, se os ricos, que, para os judeus, tinham a benção de Deus, estão longe de entrar no Reino, então quem pode se salvar?

O que nos interessa é a resposta de Jesus:

Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis (v. 26).

Graça pura! A salvação é obra de Deus, não nossa! Para nós é impossível. Para Deus, todas as coisas são possíveis!

É interessante que, logo depois da história do Jovem Rico, Mateus cita duas parábolas de Jesus que mostram que a lógica do Reino de Deus não tem a ver com mérito, com fazer ‘boas obras’ para alcançar algo, mas com a bondade unilateral de Deus.

Na primeira parábola, a dos Trabalhadores da Vinha (Mt 20:1-16), Jesus mostra que tanto faz você trabalhar na vinha ao meio-dia ou às cinco da tarde; o salário é o mesmo. Em outras palavras, tanto faz ser Dimas ou Paulo, é cidadão do Reino do mesmo jeito!

Na segunda, a do banquete (Mt 22:1-14), são convidados “tanto bons quanto maus” (v. 10). Ou seja, não há um pré-requisito para entrar. Há, sim, um requisito para ficar no banquete: usar as vestes nupciais do Rei (v. 11), isto é a justiça de Cristo!

Em suma, salvação é graça pura, vinda de Deus!

Louvado seja o Senhor!

(Bruno Ribeiro)

Jesus buscou responder ao jovem rico nos próprios termos do rapaz. “Ah, você acha que deve fazer boas obras para obter a vida eterna? Então guarde os mandamentos.” E o que Jesus faz em seguida? Mostrar que ele não guarda coisa nenhuma e que a salvação é impossível ao homem – ela pertence a Deus.

(Vanedja Cândido)

6 comentários

  1. Weslley

    Obrigado pela explicação realmente foi bem esclarecedora, mas eu fiquei com uma dúvida por que nos outros dois evangelhos (Marcos e Lucas) a tradução muda e diz assim: “Disse-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Bom só existe um que é Deus” (Marcos 10:18)
    Minha dúvida é Jesus não é Deus por que ele diz isso? A tradução está errada?

  2. Bruno Ribeiro Nascimento

    Opa Irmão Weslley,

    A mudança do fraseado de Mateus (“Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom”) para Marcos e Lucas (“Por que me chamas de bom?” Bom só existe um que é Deus) diz respeito aos objetivos narrativos dos Evangelistas, mas a essência da resposta é a mesma.

    A grande questão na história do Jovem Rico é sobre a impossibilidade de alguém acumular “atos de justiça” e apresentar a Deus em troca da vida eterna. Jesus, nas três histórias, inverte a ‘lógica’ e afirma que a salvação é uma dádiva a ser recebida.

    Quando, em Marcos e Lucas, Jesus afirma “Por que me chamas de bom? Bom só existe um que é Deus”, Ele está forçando o homem a reconhecer que, a fim de verificar se ele, o jovem rico, era realmente bom, ele deveria se comparar com a bondade de Deus. Perceba que, na parábola anterior, em Lucas 18.9-14, o Fariseu se compara ao Publicano (“Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homem”, v. 11). Em seguida, Lucas coloca a história de Jesus com as crianças, afirmando que devemos receber o Reino do Céus como elas (v. 17), ou seja, em sinceridade, dependência, plena confiança, etc. Aí é quando chegamos na história do jovem rico: “Por que me chamas de bom? Bom só existe um que é Deus”. Percebe a lógica por trás das narrativas: é como se Lucas tivesse corrigido a declaração do Fariseu e mostrado na prática como receber o reino como uma criança através do que falou Jesus! Isso fica mais evidente porque, em seguida, toda a história se repete (“falta uma coisa”, “quão difícil é um rico entrar no reino dos céus”, “o que é impossível para os homens é possível para Deus”, etc).

    Além disso, possivelmente Jesus estiva incentivando o jovem a refletir sobre a natureza de sua afirmação! É como se os Evangelistas nos colocassem para refletir nos seguinte: “Jesus é o bom mestre? Mas só existe um bom que é Deus. Então, podemos ou não chamar Jesus de bom? Se sim, estaremos reconhecendo sua natureza divina. Senão, então não faz sentido chamá-lo de bom”. Note que Jesus não negou que Ele, Jesus, era bom. Apenas que o único bom é Deus. Daí o jovem deveria tirar as implicações do que estava sendo dito!

  3. Bruno Ribeiro Nascimento

    Outra coisa irmão, nos Evangelhos, é comum que Jesus faça com que as pessoas percebam as implicações de suas próprias declarações, mostrando que a aceitação ao senhorio de Jesus é algo refletido, pensado, racional.

    Vou citar um exemplo:

    Em Lucas 12.13, o Evangelista cita alguém na multidão que diz: “Mestre, dize a meu irmão que divida a herança comigo”.

    Jesus responde: “Homem, quem me designou juiz ou árbitro entre vocês?”. (v. 14).

    Bem, Paulo diz que Jesus é o justo juiz (II Tm 4.8). Na verdade, nada mais justo do que um Rabi como Jesus para julgar a causa do homem (Os rabis julgavam as causas das pessoas no séc. I).

    No contexto, Jesus acabara de ensinar sobre a importância das motivações (v. 1-12). Mas veja que, o homem não pede para Jesus julgar a causa, mas para que o irmão divida a herança com ele. Em outras palavras, ele queria a ‘aprovação’ de Jesus sobre sua causa. A reposta de Jesus leva o homem a refletir sobre as implicações do que o homem estava realmente pedindo!

    • Weslley

      Aa valew brother, vc respondeu de uma forma muito elucidativa minha pergunta, obrigado por responder agora eu posso entender mais sobre Cristo e suas declarações, Deus seja louvado e que ele te abençoe 🙂

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