O que é mundanismo? – parte 2

Vejamos agora o que a Bíblia define como mundanismo. Um texto básico para todas as ocasiões em que se fala no assunto é 1 João 2:15:

Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.

Quer saber como “vencer” debates dentro de um grupo religioso convencional? Use 1 João 2:15! Não importa a situação! Eis um texto coringa para qualquer discussão em que alguém se encontre sem argumentos.

Se não gosto da cor vermelha e quero que todos desgostem também, como proceder? Simples, basta disparar o velho “não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo”. Pronto! Afinal, qual cristão deseja ser visto sob o título de “mundano”? Tal palavra tem efeito paralisante sobre muitos, de modo que qualquer coisa que se rotule sob esse título torna-se automaticamente estigmatizada no meio cristão. Repare, automaticamente mesmo. Não há reflexão, estudo meticuloso da Bíblia. Nada disso! Para quê, não é mesmo? Afinal, se algo é “mundano”, não há mais o que se discutir, refletir ou estudar; basta eliminar.

Perceba como essa atitude preguiçosa e covarde atravanca o escrutínio bíblico no seio cristão. Quem é que deve definir se algo é mundano? É a Bíblia quem deve definir o que é mundano, não você, eu, seus pais, seus amigos, seu pastor, ancião, ou membro com maior tempo de igreja do que você. Graves problemas advêm quando os cristãos terceirizam a investigação bíblica.

Contudo, continue lendo 1 João 2:

Pois tudo o que há no mundo — a cobiça [ou concupiscência] da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens [ou soberba da vida] — não provém do Pai, mas do mundo (v. 16).

Veja que o próprio texto se preocupa em elencar as coisas as quais ele chama de “mundo”: “cobiça da carne”, “cobiça dos olhos” e “ostentação dos bens [ou soberba da vida]”.

Na frase “cobiça da carne”, o pensamento é o do prazer físico; enquanto na “cobiça dos olhos”, a ideia é prazer mental. Na expressão “soberba da vida”, a palavra “vida”, no original grego é bios, e não zoe (outro termo grego para vida). Este último significa o principio primordial de vida, enquanto o primeiro – que é usado no texto – tem também a acepção de posses, sustento, recursos. “Assim a ‘soberba da vida’ é o orgulho ostensivo da posse dos bens materiais” (Comentário Bíblico Moody).

E veja: soberba significa orgulho! Mas quantos sermões você já viu enfatizando que os crentes orgulhosos são, na verdade, mundanos? Poucos, provavelmente nenhum. Mas tá assim de sermão associando mundanismo a vestes e comportamentos que a Bíblia nunca, ou quase nunca associa.

Muitos, no afã de defender os princípios bíblicos, acabam por desmerecê-los, defendendo como bíblicos princípios que a Bíblia mesma nunca pretendeu defender.

A verdadeira separação do mundo é muito mais drástica e envolve bem mais renúncia do que vestir-se decentemente ou falar de tal maneira – algo que qualquer mundano de bom senso pode fazer. Agora, não me entenda mal, não estou dizendo que a Bíblia não se preocupa com o que vestimos ou comemos, mas que esse não é seu foco principal, muito menos o foco nas vezes que a Bíblia denomina algo de mundano. Portanto, também não deveria ser o nosso.

Você já parou para pensar no que é mais cômodo: simplesmente passar a vestir-se de maneira X, não ingerir coisas Y, ou deixar o orgulho e a presunção de lado? Conheço muitos descrentes que fazem tudo isso e muito mais. Isso não quer dizer que eles sejam mais crentes do que os crentes, apenas mais morais. A natureza humana tende a exaltar na Bíblia da cabeça dela aquilo que lhe é mais cômodo – isso não é novidade. Mas o pior é a hipocrisia dos que agem exatamente dessa forma, adequando a Bíblia ao seu comodismo, mas ainda acusam apenas os outros de fazê-lo.

Coloque água pura numa garrafa de vidro escuro, lacre-a, depois cole nela um rótulo contendo uma caveira com dois ossos cruzados. Dificilmente, alguém, ainda que morrendo de sede, irá se arriscará a beber o conteúdo de algo com um rótulo tão negativo. E, nesse caso, tal atitude é até bem racional. Contudo, não é tão racional quando alguém faz na sua frente o teste físico-químico no conteúdo da garrafa. O teste prova que é água potável, mas você ainda se recusa a bebê-la, e pior, tenta convencer a outros do mesmo. Tudo por causa de um rótulo de papel, colocado sabe-se lá quando, sabe-se lá por quem. O que importa é que o rótulo está lá há tempo e ele simplesmente não pode estar errado.

Esse é o problema de se seguir meras tradições. A questão não é que as tradições sejam intrinsecamente más. Não tenho nada contra tradições em si. Tenho, sim, contra a postura que muitos adotam diante delas, como se quem, por um motivo ou outro, não as adota estivesse, automaticamente, dando as mãos ao mundo. O problema é a atitude de tratá-las como se fossem mandamentos, e não como o que de fato são: tradições.

Cuidado! Se você é cristão, a sua regra de fé e prática é a Bíblia. Reflita constantemente se ela e somente ela tem tomado esse papel em sua vida. Se você não tiver uma crescente preocupação quanto a refletir se está mesmo fazendo a Bíblia a sua única norma de fé, esqueça, você simplesmente não é cristão.

A verdade quer lhe libertar (Jo 8:32). Você não precisa ficar preso à tradição ou interpretação bíblica alheia quando ela mesma quer penetrar em sua vida e renovar a sua mente, fazendo de você uma pessoa mais amiga de Cristo, uma pessoa mais amorosa, e não apenas mais moral.

No próximo vamos estudar outros textos bíblicos sobre mundanismo. Desta vez, vamos ler grandes porções da epístola de Tiago.

(Vanedja Cândido)

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