Ultimato para Israel?

Publicado em 25/05/2013 por Matheus Cardoso como Bíblia, Teologia
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A profecia das 70 semanas (Dn 9:24-27) é uma das mais extraordinárias da Bíblia. Ela mostra que há um Deus que revela o futuro e que Jesus de Nazaré é o Messias prometido (veja Jacques Doukhan, On the Way to Emmaus: Five Major Messianic Prophecies Explained [Clarksville, MD: Messianic Jewish, 2012], p. 149-194).

Em resumo, a profecia diz que o Messias apareceria 483 anos depois de ser emitido o decreto para a reconstrução de Jerusalém (o que aconteceu em 457 a.C.). Portanto, o Messias deveria aparecer em 27 d.C. Jesus é o único personagem que cumpriu essa especificação.

Mas, neste momento, não pretendo falar sobre como essa profecia pode ser usada para levar Deus aos céticos nem sobre como demonstrar pelo Antigo Testamento que Jesus é o Messias. Quero comentar sobre uma interpretação comum, mas que não está livre de críticas.

Teoria da rejeição

A profecia das 70 semanas começa com estas palavras:

Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade (Dn 9:24).

“O teu povo”, evidentemente, é o povo de Daniel, o povo judeu. E a “santa cidade” é Jerusalém.

Com base nesse texto, muitos acreditam que a profecia das 70 semanas apresenta uma espécie de ultimato para Israel, a última chance para os judeus se arrependerem e aceitarem Jesus. Como as 70 semanas terminaram em 34 d.C. (três anos e meio após a morte de Jesus), nesse ano Israel teria sido rejeitado por não haver aceitado Jesus.

Um excelente livro sobre Daniel explica que as 70 semanas “foram estabelecidas especialmente em relação ao povo judeu”. Até o fim desse período, Jesus “pretendia manter Sua promessa para com os judeus”. “Portanto, nos anos que se sucederam imediatamente a cruz, milhares de judeus” creram em Jesus. Mas

a rejeição de Cristo por parte dos judeus – a qual foi simbolizada pelo apedrejamento de Estêvão – conduziu diretamente à proclamação do evangelho ao mundo não judeu. […] A vinha deveria ser tomada de Israel e oferecida a uma “nação” diferente [ou seja, os gentios] (C. Mervyn Maxwell, Uma nova era segundo as profecias de Daniel [Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004], p. 235-236, 242, 241).

Outra interpretação

Geralmente os judeus messiânicos (isto é, os judeus que creem em Jesus) não seguem essa interpretação. Veja, por exemplo, os livros do Dr. Jacques Doukhan sobre Daniel (Daniel: Vision of the End [Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1987]; Secrets of Daniel: Wisdom and Dreams of a Jewish Prince in Exile [Hagerstown, MD: Review and Herald, 2000]). Doukhan é um judeu adventista que possui dois doutorados em Antigo Testamento, além de formação rabínica, e é professor na Universidade Andrews, Estados Unidos.

Recentemente descobri que um importante estudioso não judeu discorda da interpretação do “ultimato” de Israel. Trata-se do Dr. Roy Gane, professor de Antigo Testamento na Universidade Andrews, considerado o maior especialista do mundo no livro de Levítico e uma notável autoridade no livro de Daniel. Ele apresenta sua compreensão naquele que provavelmente seja o melhor livro não acadêmico sobre as profecias de Daniel 8 e 9, intitulado Who’s Afraid of the Judgment? The Good News About Christ’s Work in the Heavenly Sanctuary (Boise, ID: Pacific Press, 2006).

Nesse livro, Gane cita (com aprovação) este texto de Jacques Doukhan:

As 70 semanas não foram “determinadas” contra os judeus, de modo a assinalar o destino deles ou significar a rejeição de Israel. Em vez disso, o propósito das 70 semanas é mostrar as boas-novas da salvação dos judeus e do mundo através da obra do novo Sumo Sacerdote [Jesus Cristo]. Nesse evento, que aconteceu em 31 d.C., Jesus Se assentou à direita do Pai depois da ascensão (1Pe 3:22). Além disso, o evento foi confirmado em 34 d.C., precisamente no fim das 70 semanas, quando Estêvão viu “os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus” (At 7:56) (Who’s Afraid of the Judgment?, p. 55, citando Jacques Doukhan, Mystery of Israel [Hagerstown, MD: Review and Herald, 2004], p. 36, grifo no original).

Então, qual é o assunto da profecia?

A interpretação defendida por Doukhan e Gane parece fazer sentido. É verdade que a profecia começa com as palavras “setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo”. Mas o fato é que “em nenhum lugar o texto da profecia sugere o conceito” de rejeição (Doukhan, Secrets of Daniel, p. 151).

Veja a frase completa:

Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos (Dn 9:24).

O texto não fala sobre rejeição, mas sobre salvação!

No livro citado por Gane, Doukhan diz ainda que Daniel 9:24-27 “transmite a ideia de esperança e salvação, porque o Messias viria deste povo e para este povo. Portanto, essas são boas-novas para o povo [de Israel], notícias de libertação e redenção, em vez de triste fim e rejeição”. O mesmo capítulo “descreve Daniel esperando e orando a Deus pela salvação de seu povo. Em resultado disso, veio essa profecia como resposta de Deus ao pedido de Daniel (Dn 9:21)” (Mystery of Israel, p. 34, grifo no original).

Como já vimos, “o propósito das 70 semanas é mostrar as boas-novas da salvação dos judeus e do mundo através da obra do novo Sumo Sacerdote [Jesus Cristo]” (idem, p. 36). No fim das 70 semanas, em 34 d.C., ocorreu “um importante evento para a civilização e a salvação humana”. Nesse ano,

a mensagem do Deus de Israel explodiu para além das fronteiras da Palestina e alcançou os gentios (At 8). Esse é não somente o ano da conversão e do chamado apostólico de Paulo (At 9), mas é o ano em que Deus derramou Seu Espírito sobre os “muitos” gentios (At 10:44-45). […] Essa profecia não fala sobre a rejeição dos judeus, mas sobre a adoção dos gentios, que não substituíram os judeus, mas se uniram a eles (foram “enxertados” neles, como diz Romanos 11:17-24)” (idem, p. 38).

Na passagem mais importante do Novo Testamento sobre Israel e a igreja (Rm 9–11), o apóstolo Paulo declara:

Pergunto, pois: Acaso Deus rejeitou o Seu povo? De maneira nenhuma! Eu mesmo sou israelita, descendente de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o Seu povo, o qual de antemão conheceu. […] Quanto à eleição, [os israelitas] são amados por causa dos patriarcas, pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis (Rm 11:1-2, 28-29).