Todos os cisnes são brancos?

Publicado em 30/07/2014 por Matheus Cardoso como Teologia
Tags:

Como vimos nos dois textos anteriores da série, a observação é fortemente orientada pela teoria. Sem uma teoria que lhe dê aporte, o observador teria que fazer uma lista interminável de observações vazias ou coletar uma série de dados sem sentido. Além disso, o processo indutivo, ainda que possuidor de premissas verdadeiras, pode levar um observador atento a conclusões falsas. Essas constatações podem parecer estranhas num primeiro momento, mas foram levantadas por vários filósofos e cientistas preocupados em entender como a ciência funciona. Um deles foi um filósofo austríaco chamado Karl Popper (1902-1994). Popper deu origem ao que se conhece como falsificacionismo. Para ele, nem todas as observações e experimentos do mundo podem provar que uma teoria está certa, mas uma única observação contrária pode provar que uma teoria está errada. Em outras palavras, por mais que eu tenha observado o maior número possível de cisnes, não é possível dizer que todos os cisnes são brancos (afinal, nem todos os cisnes do mundo foram observados). No entanto, basta um único cisne preto para se concluir com certo grau de segurança: “Nem todos os cisnes são brancos.”

Para um falsificacionista, o critério de demarcação para apontar o que é ou não é ciência é sua falseabilidade, ou seja, uma vez que não é possível determinar através de observação e testes uma verdade de forma definitiva, é possível determinar a falsidade de algo de forma conclusiva. Teorias devem ser mantidas em stand by. Um cientista pode ter certeza de que uma teoria foi falseada, mas ele não pode ter a mesma certeza de que uma teoria é verdadeira. As duas únicas respostas que a natureza pode conceder a um cientista são:não e talvez. Na ciência, nunca se deve confiar dogmaticamente quando a natureza responder sim, ou melhor, quando disser sim, ela está, na verdade, querendo dizer pode ser. A ciência busca a todo tempo experimentos ou observações que possam falsear uma teoria de forma decisiva.

A forma como Popper chegou a essa constatação pode nos ajudar a visualizar melhor os princípios envolvidos para um falsificacionista. Popper queria separar nitidamente o que é ciência do que seria pseudociência. Para ele, uma das armadilhas do indutivismo é que ele pode ser empregado para validar qualquer teoria, ou melhor, as afirmações de determinadas correntes de pensamento poderiam ser verificadas em qualquer parte. Popper se incomodava particularmente com o marxismo e com a psicanálise. Toda vez que um marxista abre um jornal, ele encontra evidências de que existe uma luta de classes. Toda vez que um freudiano recebe um paciente em sua clínica, ele encontra evidências que corroboram sua teoria. Em suma, parecia que tudo poderia ser enquadrado em suas respectivas teorias.

Diante disso, Popper notou um paradoxo: essa aparente segurança apontada por essas duas correntes, essa tendência de sempre encontrar evidencias que as corroborassem, acabava se tornando uma fraqueza. A fim de servir como comparação, o filosofo austríaco relembrou uma apresentação em Viena da teoria da relatividade feita pelo próprio Albert Einstein. Uma das coisas que impressionou Popper é que Einstein descrevia com precisão o que poderia mostrar que sua teoria da relatividade estava errada: “Se o desvio das linhas espectrais para o vermelho devido ao potencial gravitacional não ocorrer, a teoria geral da relatividade será insustentável.”

Eureka! Aí estava uma atitude completamente diferente das atitudes dogmáticas dos marxistas e psicanalistas: Einstein buscava apontar evidências que não apenas corroborassem sua teoria, mas que também fossem capazes de responder à pergunta crucial: “O que demonstraria que estou errado?”

No entanto, por mais que a atitude de Popper seja importante e interessante para um cientista, ela também não é um critério seguro para demarcar o que é e o que não é ciência. Um dos motivos por que a falseabilidade de uma teoria não demonstra que a teoria está errada é que observações e testes são falíveis. Na ciência, não existe um experimento determinante, capaz de demonstrar que todo um arcabouço teórico está equivocado. Na realidade, pode até ser que a observação feita é que esteja errada e não a teoria em si. Na prática, pode ser que todos os cisnes sejam brancos e aquele único cisne preto encontrado não seja um cisne: ele pode ser um pato!

Um exemplo na história da ciência pode ilustrar por que o falsificacionismo não é um critério demarcador seguro: na época de Nicolau Copérnico (1473-1573) os astrônomos viviam medindo o tamanho de Vênus a olho nu. A conclusão a que chegaram: “Vênus, conforme visto da Terra, não muda de tamanho durante o passar do ano.” Ela se encaixava bem na teoria de Ptolomeu de que a Terra está imóvel no centro do cosmo, tendo Vênus como um dos corpos celestes que giraria em torno da terra. O curioso é que essa observação era tão segura que foi aceita por praticamente todos os astrônomos, adeptos de Ptolomeu (geocentrismo) ou de Copérnico (heliocentrismo). Afinal, os fatos levavam a ela.

Todavia, ela trazia problemas graves para o modelo heliocêntrico. Afinal, se Vênus e a Terra giram ao redor do Sol, haverá momentos do ano em que o primeiro estará mais distante e outros em que ele estará mais próximo da Terra, correto? É a inferência lógica. Sendo assim, por que o tamanho de Vênus, visto aqui da Terra, não oscila ao longo dos anos? O heliocentrismo previa que Vênus deveria mudar de tamanho ao longo do ano. Mas ele não o fazia. O teólogo protestante Andreas Osiander escreveu a seguinte observação no prefácio do primeiro livro de Copérnico De Revolutionibus Orbium Coelestium: “Estas hipóteses chegam mesmo a ser contrárias às observações sobre a órbita de Vênus.” Ou seja, ele afirmava que o fato de a Terra girar ao redor do Sol era apenas uma hipótese, já que contradizia dados observacionais como esse.

Contudo, hoje sabemos que essa observação era falsa. Ela se baseava num tipo de experimento falível, a saber, que o olho humano calcula de forma acurada fontes de luz distantes. Instrumentos ópticos posteriores revelaram que o tamanho de Vênus realmente oscila ao longo dos anos, quando observado aqui da Terra (veja aqui). Mas, no tempo de Copérnico, eles não tinham essa informação (nem esses aparelhos). Esse poderia ser um experimento determinante, mostrando que é falsa a teoria de Copérnico de que a Terra gira em torno do Sol. Mas não foi o que aconteceu. E, se tivesse acontecido, ou seja, se a teoria de Copérnico tivesse sido falseada por causa de um fato como esse, certamente seria um passo atrás.

Além disso, não é razoável interpretar alguns sins da ciência como talvez. Os astrônomos falsearam de forma conclusiva o geocentrismo. No entanto, eles afirmam com o mesmo grau de certeza que a Terra é esférica e que ela gira em torno do Sol. Manter teorias emstand by e fazer a pergunta “O que demonstraria que minha teoria está errada?” é um valioso princípio a fim de evitar o dogmatismo, mas não é um critério definitivo de demarcação para dizer que algo é cientifico ou não; ou que uma teoria foi ou não definitivamente falseada.

(Bruno Ribeiro é formando em Comunicação Social [Rádio e TV] pela Universidade Federal da Paraíba e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação na mesma instituição. Retirado do site Criacionismo.)

Referências:

BASTOS FILHO, Jenner. O que é uma teoria cientifica. Maceió: EDUFAL, 1998.

KOESTLER, Arthur. O homem e o universo: como a concepção do universo se modificou, através dos tempos. São Paulo: Ibrasa, 1989.

POPPER, Karl. Autobiografia intelectual. Brasília: UnB, 1977.

POLKINGHORNE, John. Além da ciência. Bauru: EDUSC, 2001.