Templo de Macedo

Publicado em 14/08/2014 por Matheus Cardoso como Bíblia, Igreja, Teologia

A construção de um novo templo da Igreja Universal do Reino de Deus em São Paulo tem sido objeto de muita atenção. A obra multimilionária do bispo Edir Macedo criou uma monumental construção em um bairro tradicional paulista, sob suspeita de fraudes e irregularidades (veja aqui). O curioso é que o templo é chamado de “Templo de Salomão” (veja aqui), o que remete a algumas ideias interessantes.

O templo de Salomão da Bíblia, assim como o templo de Macedo do Brás, não foi construído por uma iniciativa divina. Quando Davi revelou sua intenção de construir um templo, Deus respondeu que não tinha pedido a ninguém para Lhe construir uma casa suntuosa, já que Ele habitava na tenda do santuário desde o período do Êxodo no deserto (2Sm 7:5-7; 1Cr 17:4-6). Ainda assim, Deus aceita o templo, e determina que o filho de Davi, Salomão, iria construí-lo.

A valorização de imensos monumentos religiosos era comum nas religiões antigas, mas nunca foi um aspecto característico da religião bíblica. Apesar de o templo de Salomão ser incomparavelmente mais esplêndido do que o construído posteriormente por Zorobabel, que parecia “como nada aos vossos olhos”, a glória deste segundo templo é maior que a do primeiro, segundo o profeta Ageu, e ali Deus daria a Sua paz (Ag 2:3, 6-9). Mesmo esse templo sendo muito mais modesto, ainda foi admirado e exaltado pelos discípulos, atitude que não foi compartilhada por Jesus (Lc 21:5-6; Mc 13:1-2).

Curiosamente existe um outro elemento associado ao santuário. Quando Deus termina de descrever a Moisés cada parte do tabernáculo que deveria ser construído no deserto, uma última ordem é dada como conclusão das orientações divinas: a guarda do sábado como um “sinal” eterno (Êx 31:12-18). O sábado é estabelecido como um santuário construído no tempo (veja Abraham Joshua Heschel, O Schabat: seu significado para o homem moderno [São Paulo: Perspectiva, 2004]). Nos mitos pagãos da criação do mundo, quando os deuses terminam sua criação, um memorial é construído: uma árvore, uma montanha ou até uma cidade é consagrada. No mito babilônico da criação do mundo Enuma Elish, a criação termina na tábua 5 com um cântico de louvor a Marduk e a construção da cidade da Babilônia. Porém na narrativa bíblica a primeira coisa a ser consagrada, logo após a criação, é o tempo, um dia, o sábado (Gn 2:1-3).

No pensamento bíblico o tempo sagrado é superior ao espaço sagrado. A presença de Deus se manifesta em todo lugar (Is 6:3; Sl 139:7-10), mas não em todo tempo. O espaço não pode limitar a ação de Deus, mas há momentos de silêncio e momentos de grande manifestação divina (Sl 75:2; Ec 3:17; Is 42:13-15). Deus não exigiu que Israel tivesse diversos santuários espalhados pelo seu território, mas determinou diversos dias sagrados, que estavam ligados a eventos no tempo (Lv 23; Nm 28:16 – 29:40) – e apontavam para o passado e para o futuro. A ênfase de Deus é no tempo, e não no espaço. Quando perguntado sobre o local ideal de adoração, Jesus responde: “Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (veja Jo 4:19-24). Mais importante que o local de adoração é o momento. Não é o local que dá significado ao tempo passado nele. É o tempo que dá significado ao local.

O Deus de Israel é o Deus da história, mais do que o Deus da geografia (veja Heschel, O Schabat). O espaço pode ser modificado pelo homem, comprado, destruído, restaurado. O tempo é domínio divino. Todo ser humano, rico, pobre, judeu, cristão, pagão, palestino, africano, todos têm o mesmo acesso ao tempo. Ninguém pode destruir ou possuir determinado dia. O tempo pertence a todos, e ao mesmo tempo a ninguém.

E de todos os homens Deus exige um tempo, um dia de consagração, o sábado (Êx 20:8-11; Is 56:1-3; Is 58:13-14). O sábado é um refúgio para o encontro com Deus ainda melhor do que o Templo. No templo de Salomão era proibido qualquer estrangeiro oficiar um serviço religioso (Lv 22:10), porém

Aos estrangeiros que se chegam ao Senhor […] todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a Minha aliança, também os levarei ao Meu santo monte […] porque a Minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos (Is 56:6-7).

O acesso ao templo de Salomão era proibido a qualquer pessoa mutilada ou com deficiência física (Lv 21:16-23). Mas é dito:

Aos eunucos [castrados] que guardam os Meus sábados […] darei na Minha casa e dentro dos Meus muros, um memorial e um nome melhor do que filhos e filhas […] que nunca se apagará (Is 56:4-5).

Isaías fala da construção do templo pelos homens com uma certa ironia:

Assim diz o Senhor: O céu é o Meu trono, e a terra, o estrado dos Meus pés; que casa Me edificareis vós? E qual é o lugar do Meu repouso? Porque a Minha mão fez todas estas coisas, e todas vieram a existir, diz o Senhor, mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da Minha palavra (Is 66:1-2).

A atenção divina está voltada para o coração humano, mais do que a templos e santuários. Quando Deus estabelece a construção do tabernáculo do deserto, a intenção dEle era a habitação com o homem. “E Me farão um santuário, e habitarei no meio deles” (Êxodo 25:8). É possível a leitura do hebraico veshakhanti betokhem (e habitarei no meio deles) como “E habitarei neles [dentro deles]”. Essa parece ser a interpretação de Paulo desse texto em 2 Coríntios 6:16. A qualidade do tempo que o homem dedica a Deus – seja qual for o lugar – é o que constrói o seu relacionamento com Ele. Espero que os seguidores de Macedo tenham bons momentos espirituais no templo que construíram, e nós também em nossas igrejas, casas, nas ruas, nos carros, em todo lugar. O momento de habitação de Deus com o homem – isso é o verdadeiro templo sagrado (Ap 21:22; 1C 3:16), maior e mais importante do que o templo de Salomão, de Zorobabel – e de Macedo.

(Rolnei Tavares)