Retorno às origens?

Publicado em 13/05/2013 por Matheus Cardoso como Igreja, Teologia
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Atualmente, muitos falam sobre a necessidade de se retornar às origens do movimento adventista. Os pioneiros supostamente teriam uma compreensão doutrinária mais pura e correta. Mas em que exatamente devemos nos aproximar dos primeiros adventistas? Como eles viam a si mesmos e sua compreensão teológica? O que realmente devemos aprender com eles?

Essas perguntas são respondidas pelo conhecido historiador George Knight no livro Em busca de identidade: o desenvolvimento das doutrinas adventistas do sétimo dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005).

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A maioria dos fundadores do adventismo do sétimo dia não poderia unir-se à igreja hoje se tivessem de concordar com as “28 Crenças Fundamentais” da denominação. Para ser mais específico, eles não poderiam aceitar a crença número 2, que trata da doutrina da Trindade. […]

A maioria dos primeiros adventistas não somente discordava de seus modernos herdeiros nessas […] áreas, mas adotava entre suas crenças centrais a teoria da “porta fechada”, segundo a qual o fechamento da porta da graça e o encerramento da missão evangelizadora por parte da igreja teriam ocorrido em outubro de 1844. Ellen White […] partilhava desse mesmo ponto de vista.

Outras crenças que ela mantinha em comum com a maior parte dos adventistas durante o final da década de 1840 e começo da década de 1850 eram que o sábado começa às 18 horas de sexta-feira e vai até as 18 horas de sábado e que era permitido comer carne de porco e outros animais classificados como imundos em Deuteronômio 14. [Outro exemplo é que até o fim de sua vida, Ellen White se alimentou de ostras, porque, na época, os adventistas acreditavam que essa prática estava de acordo com as leis de saúde de Levítico 11.]

A verdade presente não é estática

José Bates e Tiago e Ellen White (os três fundadores do adventismo do sétimo dia) tinham um conceito dinâmico do que chamavam de “verdade presente”. […]

Em 1849, Tiago White, após citar 2 Pedro 1:12, que fala sobre estar firmado na “verdade presente”, escreveu que “no tempo de Pedro havia uma verdade presente ou verdade aplicável àquele tempo. A igreja sempre teve uma verdade presente. […]” (Present Truth, julho de 1849, p. 1). […]

Ellen White tinha a mesma compreensão progressiva da verdade presente que seu marido. […] Ela observou, com relação a certas questões teológicas, que “aquilo que Deus concede a Seus servos para falar hoje não foi a verdade presente de vinte anos atrás, mas é a mensagem de Deus para este tempo” (Manuscrito 8a, 1888). […] Por outro lado, em julho de 1903, ela escreveu que

haverá um desenvolvimento da compreensão, pois a verdade é suscetível de contínua ampliação. […] Nossa investigação da verdade ainda é incompleta. Temos apanhado apenas uns poucos raios de luz (Carta a P. T. Magan, 27 de janeiro de 1903). […]

Os líderes mais jovens, conforme se desenvolviam, mostraram a mesma abertura dos fundadores. Uriah Smith, por exemplo, escreveu em 1857 que os adventistas haviam descoberto verdades progressivas desde 1844. “Temos conseguido regozijar-nos em verdades muito além do que então percebíamos”, ele observou.

Mas não pensamos de modo algum que já sabemos tudo. Esperamos ainda progredir, de forma que nossa vereda se torne cada vez mais brilhante até ser dia perfeito. Que mantenhamos então um estado mental inquiridor, buscando mais luz e mais verdade (Review and Herald, 30 de abril de 1857, p. 205).

Com uma disposição similar, John N. Andrews exclamou que “trocaria mil erros por uma única verdade” (Spiritual Gifts, v. 2, p. 117). Ao mesmo tempo, Tiago White, depois de observar que os adventistas sabatistas haviam modificado seu ponto de vista sobre o horário apropriado para iniciar o sábado, afirmou que eles “mudariam outros pontos de sua fé, caso tivessem uma boa razão para fazê-lo com base nas Escrituras” (Review and Herald, 7 de fevereiro de 1856, p. 149).

Contra a rigidez de um credo

Além da fluidez de seus conceitos sobre a verdade presente, os primeiros adventistas também firmaram posição contra credos ou declarações formais de crença doutrinária que presumivelmente não podiam ser alterados. Na realidade, a crença deles na possibilidade de a verdade presente evoluir levou Tiago White e outros primeiros crentes adventistas a se oporem aos credos. […]

Em 1861, na reunião em que os sabatistas organizaram sua primeira associação estadual, John Loughborough ressaltou o problema que os primeiros adventistas viam nos credos. De acordo com Loughborough,

o primeiro passo para a apostasia é elaborar um credo dizendo o que devemos crer. O segundo é fazer desse credo uma prova de comunhão. O terceiro é julgar os crentes por esse credo. O quarto é denunciar como hereges os que não acreditarem nesse credo. O quinto e último é começar a perseguir essas pessoas (Review and Herald, 8 de outubro de 1861, p. 148).

Tiago White observou que “fazer um credo é limitar e obstruir o caminho para todo progresso futuro”. Argumentando em favor da contínua liderança do Espírito Santo na descoberta da verdade, White queixou-se de que algumas pessoas, por meio de seus credos, “limitam a maneira de agir do Todo-Poderoso. Dizem praticamente que o Senhor não deve fazer nada além do que esteja prescrito no credo”. “A Bíblia é nosso credo”, concluiu ele. “Rejeitamos qualquer forma de credo humano.” Ele desejava que os adventistas permanecessem receptivos ao que o Senhor pudesse revelar-lhes “de tempos em tempos” (Ibidem). […]

O caminho da compreensão progressiva

Aos olhos dos fundadores da denominação, as possibilidades de mudanças dinâmicas nas crenças adventistas não eram ilimitadas. Certos pontos eram inegociáveis. Talvez a tensão entre os pilares inegociáveis e o dever de perseverar na busca da verdade é mais evidente nos escritos de Ellen White. […] “Não há desculpas para ninguém assumir a posição de que não há mais verdades a serem reveladas e de que todas as nossas compreensões da Bíblia não têm qualquer erro”, escreveu em 1892.

O fato de certas doutrinas terem sido consideradas como a verdade por muitos anos pelo nosso povo não é uma prova de que nossas ideias sejam infalíveis. O tempo não transforma o erro em verdade. […] Nenhuma verdadeira doutrina terá algo a perder pela cuidadosa investigação (O Outro Poder, p. 24).

Ela voltou a fazer esse mesmo comentário sobre a necessidade de pesquisa quando escreveu que

sempre que o povo de Deus estiver crescendo em graça, obterá constantemente compreensão mais clara de Sua Palavra. […] As pessoas ficam satisfeitas com a luz já recebida da Palavra de Deus, e desistem de qualquer posterior estudo das Escrituras. Tornam-se conservadoras, e procuram evitar novo exame. […] Haverá muitos agora, como antigamente, que se apegarão às tradições, cultuando nem sabem o quê. […] Quando o povo de Deus está à vontade, satisfeito com a luz que já possui, podemos estar certos de que Deus não o favorecerá (Ibidem, p. 26-29).

Em outra ocasião, no começo da década de 1890, ela disse a certos adventistas retrógrados que “unicamente Deus e o Céu são infalíveis. Os que pensam que nunca terão de desistir de um ponto de vista acariciado, jamais terão ocasião de mudar de opinião, serão decepcionados” (Ibidem, p. 25). […]

Os primeiros adventistas criam que apenas umas poucas doutrinas tinham importância central ou fundamental para o adventismo. Ellen White tocou no tema durante as controvérsias a respeito da justificação pela fé no final da década de 1880, quando alguns afirmavam que as novas ideias estavam destruindo os pilares da fé. A essa linha de raciocínio, ela replicou que “quase nada sabiam sobre o que eram os antigos marcos”.

O passar do tempo em 1844 foi um período de grandes acontecimentos, expondo ao nosso admirado olhar a purificação do santuário que ocorre no Céu, e tendo clara relação com o povo de Deus na Terra, e com as mensagens do primeiro, do segundo e do terceiro anjos, desfraldando o estandarte em que havia a inscrição: ‘Os mandamentos de Deus e a fé de Jesus.’ Um dos marcos desta mensagem era o templo de Deus, visto no Céu por Seu povo que ama a verdade, e a arca, que contém a lei de Deus. A luz do sábado do quarto mandamento lançava os seus fortes raios no caminho dos transgressores da lei de Deus. A não imortalidade dos ímpios é um marco antigo. Não consigo lembrar-me de alguma outra coisa que possa ser colocada na categoria dos antigos marcos. Todo esse rumor sobre a mudança do que não deveria ser mudado é puramente imaginário (Ibidem, p. 21). […]

[O teólogo] Robert M. Johnston captou a essência dessa tensão entre a continuidade e a mudança na teologia adventista quando identificou o que chamou de “a característica mais impressionante do adventismo”. “Sem repudiar a direção do Senhor no passado, ele busca compreender melhor o que aquela direção era. Ele está sempre aberto a melhores discernimentos – a buscar a verdade como a um tesouro escondido.” De acordo com Johnston, os adventistas “ainda são peregrinos empreendendo uma viagem doutrinária, os quais não repudiam as balizas do caminho, mas não ficam estacionados em nenhuma delas” (Adventist Review, 15 de setembro de 1983, p. 8).

George R. Knight foi professor de História da Igreja na Andrews University, Estados Unidos, por trinta anos. Retirado de Em busca de identidade: o desenvolvimento das doutrinas adventistas do sétimo dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005), capítulo 1: “A natureza dinâmica da ‘verdade presente”.