Ressurgimento da espiritualidade

Publicado em 17/09/2013 por Matheus Cardoso como Espiritualidade, Pós-modernismo

O fascínio pela espiritualidade é uma notável característica da era contemporânea. Esse fato contrasta profundamente com o declínio das religiões tradicionais nos países ocidentais. Nas últimas décadas, o conceito de espiritualidade se estendeu muito além de suas origens cristãs – de fato, além da própria religião. Existe atualmente uma ampla busca de experiência e práticas espirituais, que são expressas de muitas formas. Como área de estudo, a espiritualidade encontra espaço cada vez maior fora da teologia e da religião, em campos acadêmicos como ciências sociais, psicologia, filosofia e estudos de gênero. O tema da espiritualidade aparece regularmente também no mundo profissional, associado a assistência médica, aconselhamento e psicoterapia, trabalho social, educação, administração, artes e esportes. […]

Como a espiritualidade é definida hoje? A resposta não é simples, porque a palavra é usada em muitos contextos diferentes. Contudo, a literatura sobre espiritualidade geralmente inclui o seguinte. Espiritualidade envolve o que é holístico – isto é, uma abordagem plenamente integrada à vida. Isso se enquadra no fato de que historicamente o que é “espiritual” está relacionado com o que é “santo” [em inglês, holy], palavra derivada do grego holos, “o todo”. Assim, em vez de ser simplesmente um elemento entre outros na existência humana, o “espiritual” é mais bem compreendido como o fator integrativo – “a vida como um todo”. Espiritualidade também está ligada à busca pelo “sagrado”. Isso inclui crenças sobre Deus, mas também se refere, de modo mais amplo, ao numinoso, às profundezas da existência humana ou aos mistérios ilimitados do cosmos.

Além disso, a espiritualidade é frequentemente compreendida como envolvendo a busca de significado (incluindo o propósito da vida), em resposta ao declínio das religiões tradicionais e das autoridades sociais. Por causa de sua associação com o significado da existência, a espiritualidade contemporânea sugere implicitamente uma compreensão da identidade humana e do desenvolvimento da personalidade. […] Espiritualidade se refere ao desenvolvimento do elemento não material da vida. “Vida” é mais do que componentes biológicos. – Philip Sheldrake, Spirituality, A Very Short Introduction, v. 336 (Oxford: Oxford University Press, 2012), p. 1, 5.

De acordo com muitos especialistas, esse renovado interesse na espiritualidade representa uma oportunidade sem precedentes para que a mensagem do evangelho seja proclamada ao mundo (veja Jon Paulien, Everlasting Gospel, Ever-changing WorldIntroducing Jesus to a Skeptical Generation [Boise, ID: Pacific Press, 2008], p. 57-77). Kleber O. Gonçalves argumenta em sua tese doutoral que “a busca por espiritualidade experiencial é um dos traços característicos do mundo ocidental no início do século 21. Os pós-modernos […] ‘estão famintos por experiências [espirituais]’” (“A Critique of the Urban Mission of the Church in the Light of an Emerging Postmodern Condition” [tese de Ph.D., Andrews University, 2005], p. 229; veja também p. 125, 191-201, 213, 229-235). Ele afirma também que, “apesar de todas as ameaças, sem o pós-modernismo não teríamos uma cultura aberta para a espiritualidade e a experiência em comunidade” (“Colheita segmentada”, Ministério, janeiro-fevereiro de 2010, p. 7).