Pregação bíblica

Publicado em 01/03/2014 por Matheus Cardoso como Bíblia, Igreja, Teologia

A ordem de Deus é: “Pregue a Palavra” (2Tm 4:2), e não: “Pregue sobre a Palavra”. A própria Palavra é o conteúdo. O pregador não cria a mensagem; a mensagem emana do próprio texto. O texto é o próprio conteúdo da mensagem. Deus não tem compromisso com a palavra do pregador; Ele tem compromisso com a Sua Palavra. Não é a palavra do pregador que tem a promessa de não voltar vazia; é a própria Palavra de Deus que tem essa promessa (Is 55:11).

A pregação expositiva se baseia em um trecho bíblico específico, razoavelmente longo, como Atos 6 ou Romanos 8:1-13. O ideal é desenvolver uma série de pregações sobre um livro bíblico, estudando-o de maneira completa, capítulo por capítulo. A pregação expositiva é tão importante porque é o compromisso de pregar a Palavra, e não apenas sobre a Palavra.

Criamos técnicas e mecanismos para atrair as pessoas. Mas, se não crermos na suficiência das Escrituras, vamos ter que criar novidades a cada dia. E novidades logo se tornam ultrapassadas. Você tem que criar outra, e outra, e outra. Pregue a Palavra. Essa Palavra é viva, é atual, é poderosa, é relevante.

Muitos pregadores estão dando uma sopa rala para o povo. E ovelha faminta é ovelha suscetível aos lobos. As heresias entram porque muitas vezes nós, pregadores, não temos dado ao povo alimento sólido da Palavra de Deus. É triste como tantos pregadores não se preparam para pregar. Paulo diz: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários […] os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Tm 5:17). O pregador se “afadiga”: é trabalho árduo, pesado. Se queremos fazer pregação expositiva, temos que estudar.

Podemos sintetizar a pregação expositiva em três verbos:

1 – Ler o texto. Você já viu alguém subir ao púlpito e ler de maneira apressada o texto que vai pregar? Com isso, ele está dizendo: “O que importa não é o texto; é o que vou falar depois”. Mas a parte mais importante de um sermão é o texto. Leia-o com entusiasmo e vibração.

2 – Explicar o texto. Calvino dizia que pregação é a explicação da Escritura. A não ser que explique o texto, você não pregou. Com frequência o que vemos são “sermões de três pontos”: o orador lê o texto, vai embora do texto e nunca mais volta para o texto. E você pensa: “Afinal, por que ele leu esse texto?!”. Alguns pregadores parecem dizer: “Já tenho o sermão, agora só me falta o texto”. Na verdade, o sermão emana do texto, é a explicação do texto. Cave o texto, descubra o texto, mergulhe em suas riquezas e as traga à tona. Muitas vezes não encontramos essas pepitas de ouro na superfície, é necessário cavar fundo. Quando uma igreja se acostuma com a pregação expositiva, ela não quer mais mastigar palha. Depois que ela descobre a riqueza da Escritura, não tolera mais escutar sermão que não expõe a Escritura.

3 – Aplicar o texto. John Stott diz que a pregação é a união entre dois mundos: o texto antigo com o ouvinte contemporâneo. Pregação não é um discurso diante de um auditório, é uma palavra ao auditório. E não se esqueça: se você não interpretar o texto corretamente, você pode se tornar herético ao aplicar o texto, proibindo coisas que Deus não proibiu ou fazendo promessas que Ele não fez.

Certa vez, um pregador de Londres [Sheldon, arcebispo de Canterbury] foi conversar com um ator famoso [Betterton] e disse: “Não entendo: você fala sobre uma fábula, e as multidões vêm ouvi-lo; eu prego a verdade, e ninguém quer me ouvir”. E o ator respondeu: “É simples: tudo depende do poder do entusiasmo. Eu falo sobre uma fábula como se fosse verdade; e você prega a verdade como se fosse uma fábula”. [Essa história é contada também em Ellen G. White, Conselhos aos pais, professores e estudantes, p. 255.]

Perdemos a centralidade das Escrituras. Por isso estamos deixando de expor as Escrituras no púlpito. Precisamos desesperadamente de um reavivamento no púlpito: um reavivamento da pregação bíblica, expositiva. Se a igreja se voltar para uma pregação centralizada na Bíblia, feita no poder do Espírito Santo, teremos um reavivamento e um crescimento saudável da igreja.

Hernandes Dias Lopes, Doutor em Ministério pelo Reformed Theological Seminary, é pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória. Seu site é Palavra da Verdade”. Retirado da palestra “A importância da pregação expositiva para o crescimento saudável da igreja”.