Os três filhos de Abraão

Publicado em 21/07/2014 por Matheus Cardoso como Missão, Teologia
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Desde 11 de setembro de 2001, a tensão entre judaísmo, islã e cristianismo tem crescido. Cada religião afirma adorar o único Deus verdadeiro e enfatiza alguns aspectos do caráter de Deus.

Mas, sempre que as pessoas estão em desacordo, elas tendem a se afastar das coisas que os seus oponentes enfatizam porque não querem se parecer com o “adversário”. Nesse processo, deixam de lado ideias que Deus deseja que preservassem.

Quando os judeus e os cristãos se separaram, a partir do fim do primeiro século, foi como se tomassem a verdade de Deus que compartilhavam e a dividissem. Cada grupo perdeu alguns elementos importantes nesse processo. Então surgiu Maomé e tentou, creio eu, fazê-los retornar ao que haviam perdido. Mas essa tentativa falhou, e as três religiões se tornaram ainda mais hostis uma à outra.

Sempre que alguém sustenta crenças diferentes das nossas, é fácil dizer: “Se eu estou certo, então você sem dúvida está errado”. Essa é uma conclusão perigosa, porque, quando apontamos o dedo para acusar alguém, é provável que deixemos de aprender o que Deus deseja nos ensinar através dessas pessoas – até em meio a crenças defeituosas.

É fácil comparar o melhor de nossa religião com o pior da religião do outro e ter a sensação de que estamos muito bem. Mas isso não é justo nem construtivo. O que aconteceria se víssemos o melhor na fé dos outros? Poderíamos ter muitas surpresas. Quais são as melhores e mais positivas contribuições de cada fé monoteísta existente no mundo? E quais aspectos singulares e centrais de cada fé as outras duas têm desprezado ou subestimado?

Outro tipo de “ecumenismo”

Os princípios centrais do cristianismo são o evangelho, a graça e Jesus. O judaísmo e o islã têm elementos de graça, mas não a plenitude apresentada pelo evangelho. Os valores centrais do judaísmo em grande parte desprezados pelas outras religiões são a lei, a obediência e o sábado. E o islã, por sua vez, enfatiza a submissão, o juízo final e a escatologia. O cristianismo e o judaísmo têm se esquivado desses últimos temas em parte porque os muçulmanos os proclamam e praticam.

Os valores centrais dessas três religiões se tornaram símbolos de divisão. Mas, quando analisamos cuidadosamente essas crenças, começamos a descobrir que o remanescente do Apocalipse expressa todas elas. Evidentemente, é propósito de Deus que, no tempo do fim, exista um grupo de pessoas fiéis à plenitude da sua Palavra. E, dessa fidelidade, surgirá um conjunto de crenças e de prática que será igualmente atraente aos fiéis de todas as grandes religiões do mundo.

Quase 2 mil anos atrás, Deus designou uma mensagem que seria especialmente apropriada à época em que vivemos. Assim, o remanescente de Deus terá uma mensagem não apenas para os cristãos, mas para os judeus, os muçulmanos, os budistas, os hindus – para todas as pessoas. O remanescente final será formado por todos aqueles que forem fiéis a Deus para encontrarem Jesus quando Ele vier.  O cristianismo – com sua mensagem sobre o evangelho, a graça e Jesus –, o judaísmo – com a lei, a obediência e o sábado – e o islã – com a submissão, o juízo final e a escatologia – reunirão o povo de Deus.

Estes são apenas vislumbres do que pode ocorrer. Mas o Apocalipse me diz que os melhores dias para o povo de Deus ainda estão por vir. – Jon Paulien, Seven Keys: Unlocking the Secrets of Revelation (Nampa, ID: Pacific Press, 2009), p. 114-117.

Existe outro tipo de “ecumenismo”, que consiste no chamado de Deus a muitos indivíduos de cada instituição religiosa do globo. Entre católicos, muçulmanos, hindus, judeus, budistas e todos os demais grupos, há muitas pessoas que estão buscando a verdade e vivem um relacionamento com Deus. Por meio do Espírito Santo, Deus está presente em cada lugar antes mesmo que os missionários cheguem lá. Tenho encontrado a fé genuína em muitos lugares que jamais imaginei. […] O remanescente de Deus do tempo do fim será formado por pessoas de todas as nações, tribos, línguas, povos e – sim – religiões. – Jon Paulien, “Ecumenismo versus exclusivismo”.

Simpósio “Nosso pai Abraão”

Embora o cristianismo, o islã e o judaísmo compartilhem da herança comum de Abraão, essas três importantes religiões têm vivido em conflito e incompreensão durante séculos. Um grupo interconfessional de estudiosos se reuniu [em 28 de março de 2006] no campus da Andrews University (EUA) para analisar e compartilhar soluções para as atitudes distorcidas e equívocos entre as três religiões. […]

Participantes do simpósio

As apresentações exploraram as dimensões sociológicas, éticas e filosóficas de cada religião, bem como os fundamentos teológicos da atitude de cada crença em relação às outras duas, buscando substituir a estreiteza mental e o antagonismo pelo terreno comum. O simpósio “Our Father Abraham” (Nosso pai Abraão) foi patrocinado pela Associação Internacional de Liberdade Religiosa, pelo Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia (Andrews University) e por Shabbat Shalom, uma revista que aborda as relações entre judeus e cristãos. – “Symposium Addresses Shared Jewish-Christian-Muslim Heritage”.

As apresentações do simpósio estarão disponíveis na obra The Three Sons of Abraham: Interfaith Encounters Between Judaism, Christianity and Islam (Nova York: I. B. Tauris, 2014), organizada por Jacques Doukhan, professor de teologia na Andrews University.

A respeito desse livro, Michael Barnes, professor de relações inter-religiosas na Universidade de Londres, declara: “Judeus, cristãos e muçulmanos geralmente definem a si mesmos com base nas diferenças em relação aos outros. Este livro ousa pensar de forma diferente e explorar as implicações de uma pergunta diferente: Como as três versões da tradição profética originada com Abraão podem ser pensadas em conjunto – em termos complementares em vez de competitivos? Este volume sensível, incisivo mas sempre acessível aborda um dos grandes problemas de nossa época, do qual o diálogo mais amplo de religiões e culturas só pode se beneficiar. Ao incluir o islã no que é muitas vezes referida como a ‘tradição judaico-cristã’, os autores propõem uma alternativa admiravelmente generosa para a rivalidade destrutiva que tão dolorosamente tem afastado os ‘filhos de Abraão’ uns dos outros”.