O ateu, o crente e o bicho-papão

Publicado em 16/01/2014 por Matheus Cardoso como Teologia
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Outro dia alguém me enviou pelo Twitter a seguinte pergunta: “Quando vc era criança também acreditava em bicho-papão, por que deixou de acreditar?”.

Minha primeira reação foi ignorar a pergunta, formulada em tom de crítica a um tweet que postei testemunhando minha fé em Deus. Imaginei que o autor da pergunta não esperava resposta, apenas pretendia sugerir a estupidez da minha fé. Tive a mesma sensação que experimentei quando comecei a ler um texto sobre “razões por que deixei de ser crente” e o autor logo na primeira página comparou a crença em Deus à crença no Saci-Pererê. Mas, passado o ímpeto de deixar pra lá, resolvi responder, pelo menos para mim mesmo.

Minha resposta começaria afirmando que jamais acreditei em bicho-papão. O que me aterrorizava na infância eram os ciganos e o “velho do saco”. Devo isso às minhas avós, que diziam que esses homens malvados gostavam de raptar meninos desobedientes. Registro que acredito em ciganos e velhos do saco, não necessariamente como raptores de crianças, embora seja em parte verdadeiro. Mas resolvi responder como se meu imaginário infantil tivesse sido ocupado por esse tal de bicho-papão.

Eis, portanto, algumas razões por que, embora continue acreditando em Deus, deixei de acreditar em bicho-papão.

. Não conheço nenhum adulto que acredita em bicho-papão.

. Não conheço nenhuma civilização baseada em bicho-papão.

. Não conheço nenhuma religião que considere o bicho-papão um ser divino.

. Nunca ouvi uma pessoa dizer que foi transformada pelo bicho-papão.

. O bicho-papão não constitui o dilema existencial humano desde sempre.

. Nenhuma tradição de pensamento humano se ocupa com o bicho-papão.

. Nenhum gênio da humanidade viveu atormentado por causa do bicho-papão.

. O bicho-papão não se sustenta num texto considerado sagrado por mais da metade da população mundial, escrito ao longo de 2 mil anos, por 40 autores diferentes.

. Não existe quem atribua a existência do universo ao bicho-papão.

. Jamais alguém defendeu sua fé no bicho-papão com a própria vida.

. Nenhuma das virtudes humanas é associada ao bicho-papão.

. O bicho-papão não é uma crença universal e atemporal.

. O bicho-papão não ajuda a explicar o mundo em que vivo.

. O bicho-papão não ajuda a explicar a complexidade da raça humana.

. O bicho-papão não ajuda a explicar o homem que sou.

Cansei. Já passa da meia-noite.

Ed René Kivitz, mestre em Ciências da Religião, é pastor da Igreja Batista de Água Branca, São Paulo. Ele desenvolveu a série Talmidim, formada por vídeos curtos com reflexões bíblicas. Retirado do seu blog.