Nem só de observação vive a ciência

Publicado em 26/07/2014 por Matheus Cardoso como Teologia
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Como funciona a ciência? Nesta série de textos, esperamos que os leitores possam aprender um pouco sobre o funcionamento de um dos mais importantes empreendimentos do conhecimento feito pelo ser humano.

A concepção de ciência que encontramos popularizada no senso comum é fruto do indutivismo. Para quem o advoga, conhecimento científico é conhecimento que foi testado e provado. Esse tipo de saber seria seguro e absolutamente confiável porque começaria e dependeria apenas das observações e das análises empíricas. Em outras palavras, qualquer pessoa, empregando seus sentidos de forma rigorosa e utilizando ferramentas adequadas, pode fazer experimentos e obter um conjunto X de dados de forma objetiva. Na prática, ela pode perceber que um metal aquecido até a temperatura X sempre irá derreter ou que a água abaixo de Yº C sempre irá congelar.

Com os fatos adquiridos pela observação, o cientista formula leis e teorias que expliquem aquele dado fenômeno em condições universais, ou seja, dadas determinadas condições ambientais, o metal sempre irá aquecer e a água sempre irá congelar. Em tese, o conhecimento da ciência seria assim alcançado somente pela observação. Se os dados apontam para essa universalização, constrói-se uma teoria que sempre explicará essas informações. Os dados viriam antes, as teorias depois. Em tese, o que teríamos hoje como fatos científicos seriam frutos desse processo observacional, construída sobre fatos e que tem na experiência sua fonte de conhecimento – sendo, por isso, confiáveis.

Essa forma de descrever a ciência não faz justiça ao método cientifico e não é válida por várias razões. Um dos motivos é que o principio da indução não é logicamente válido. Explico: o que caracteriza um raciocínio dedutivo é que dada a veracidade de suas premissas, a conclusão é lógica e inevitável. Se for verdade que (a) tudo que começa a existir tem uma causa, e se for verdade também que (b) o Universo começou a existir, segue-se lógica e necessariamente que o (c) Universo tem uma causa.

Mas com a indução não funciona assim. Na indução é possível ter premissas verdadeiras e uma conclusão falsa. Na verdade, é possível até ter um número X de premissas verdadeiras e uma conclusão aberta. O interessante é que isso não é uma contradição. Afinal, para estabelecer uma regra geral, o raciocínio indutivo parte de um grupo particular de observações. E quantas observações seriam confiáveis a fim de oferecer uma generalização universal? É impossível saber. Depois de olhar um número significativo de gansos, não é possível dizer que todos os gansos são brancos. Isso por uma razão simples: nem todos os gansos do mundo foram observados. Pode existir em algum lugar do Universo um ganso que seja azul!

Um bom exemplo do por que o método indutivista não é logicamente válido foi dado por Bertrand Russel (1872-1970). É a estória do peru indutivista. Diz Russel que, numa“fazenda de perus”, um dos perus recém-chegados foi alimentado às 9h da manhã no primeiro dia. No segundo dia foi mesma coisa. Terceiro dia, idem. Quarto… Sempre às 9h, sempre pela manhã e sempre no mesmo horário. Mas, sendo um indutivista cauteloso, ele decidiu não se apressar em suas conclusões. Assim, resolveu analisar friamente e sem pressa uma grande quantidade de fatos.

Depois de observar uma grande quantidade de “dados”, depois de muitos (muitíssimos) dias de observação, o peru percebeu que sempre às 9h da manhã ele era alimentado, independentemente do dia, mês, tempo ou estação do ano. Faça chuva, faça sol, quente ou frio, dia útil ou feriado, quando dava 9h, estava lá o alimento.

Assim, o peru concluiu corretamente: “Sou alimentado sempre às 9h da manhã.” O problema foi que na véspera do Natal, às 9h da manhã, ele não foi alimentado, mas degolado. Suas observações eram corretas, mas sua conclusão não necessariamente era logicamente válida.

Moral da história: uma inferência indutiva, ainda que com premissas verdadeiras, pode levar a conclusões falsas. Na ciência, o método indutivo é importante, mas limitado. Afinal, quantas observações são suficientes para “justificar” um dado científico? Dez? Mil? Cem mil? E em quantas “condições diversas” é preciso fazer isso para garantir que a observação X é universal, sempre ocorreu, sempre foi assim e sempre será?

Um dos pontos interessantes é que, na indução, o contrário também é complicado, ou seja, uma única observação é capaz de induzir o observador para a conclusão X. Pense bem: quantas bombas atômicas precisam ser lançadas para concluirmos que bombas atômicas causam destruição em massa e trazem sofrimento para os humanos? Não seria inadequado pedir mais de uma? “Ah, mas isso parece óbvio.” Parece. O que é óbvio para uma pessoa pode não ser para outra. O “óbvio” se baseia, em grande parte, em nossa cultura, imaginário, conceitos e preconceitos. Ou seja, é algo relativo – não sendo por isso um guia confiável (afinal, não é obvio que o Sol gira em torno da Terra?).

Isso não quer dizer que o método indutivo e a observação não sejam importantes para o conhecimento cientifico. Eles são. É seguro dizer que a ciência se baseia em grande medida no método indutivo. Mas ele não é critério de demarcação para definir o que é ou não é “ciência”.

(Bruno Ribeiro é formando em Comunicação Social [Rádio e TV] pela Universidade Federal da Paraíba e mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação na mesma instituição. Retirado do site Criacionismo.)

Referências:

ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras. São Paulo, Loyola, 2006.

CHALMERS, Alan. O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.

RUSSEL, Bertrand. Os problemas da filosofia. Lisboa: Edições 70, 2008.