Fé e razão

Publicado em 18/05/2013 por Matheus Cardoso como Pós-modernismo, Teologia
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Nos Estados Unidos, mas nem tanto em outros países, é muito comum usar o termo “fé” para descrever a crença religiosa, mas ele pode ser muito enganador. A palavra “fé” tem conotações inadequadas, principalmente hoje, e pode ser usada para configurar uma distinção um pouco artificial entre fé, de um lado, e razão, de outro. O termo costuma trazer consigo a conotação de que as crenças religiosas estão fora da razão ou que os crentes religiosos não estão interessados na racionalidade de seus pontos de vista, ou, pior do que tudo, que as crenças religiosas não são sequer razoáveis. É assim que os secularistas podem usar o termo muitas vezes, mas ele também pode ser usado dessa forma pelos próprios crentes religiosos.

Do ponto de vista da filosofia da religião, o sentido mais importante do termo é o sentido cognitivo ou propositivo, que se refere a ter uma crença cuja evidência é menos de 100% certa ou definitiva. As crenças religiosas envolvem proposições sobre Deus, sobre a relação de Deus com o mundo e os seres humanos, sobre moralidade, entre muitas outras. O crente religioso não pode provar que essas proposições são verdadeiras, no sentido de oferecer uma prova científica ou de apresentar provas decisivas para elas, mas pode, pelo menos, tentar mostrar que acreditar ne­las é racional. Esse é o uso mais adequado do termo “fé” em filosofia da religião e indica a melhor compreensão da relação entre fé e razão. Um crente religioso baseia muitas coisas na fé, mas espera que seja uma racional (e não uma fé irracional), e o trabalho da filosofia da religião, entre outras coisas, é tentar investigar a racionalidade da crença religiosa.

A partir dessa compreensão do termo “fé”, todas as visões de mundo — religiosas ou seculares — envolvem fé nesse sentido cognitivo. Ou seja, todas as visões de mundo têm crenças sobre a natureza da realidade, a natureza da pessoa humana e a natureza da moralidade, com as quais os adeptos da visão de mundo se comprometem, mas que não podem provar decisivamente. Embora se possam sustentar algumas dessas crenças com argumentos e provas racionais, ainda é necessário se comprometer com elas, uma vez que quaisquer argumentos que tenhamos ficarão aquém da prova, em função do assunto envolvido.

O tema das visões de mundo, que envolve os três assuntos mencionados, não admite prova científica. Isso vale para todas as visões de mundo, as secularistas e as religiosas. Então, se alguém aceita várias crenças sobre a natureza da realidade, da pessoa humana ou da moralidade, essa aceitação implica um compromisso com essas crenças: um movimento da vontade, bem como do intelecto. Então, na verdade, um crente religioso e um secularista estão no mesmo barco, nesse sentido — uma questão que é negligenciada com frequência. Somos, muitas vezes, inclinados simplesmente a aceitar como verdadeira, sem dar muita atenção, a ideia de que penas a crença religiosa envolve fé, e não o secularismo. Mas agora que o secularismo é uma visão de mundo positiva em si e um fator de grande valor cultural a se potencializar, já não se deve ignorar que ele é uma visão de mundo com muitas crenças controversas que são objeto de debate polêmico e que seus adeptos aceitam muitas dessas crenças, pelo menos parcialmente, com base em fé.

Brendan Sweetman é professor de filosofia e diretor do Departamento de Filosofia na Rockhurst University (EUA). Retirado de Religião: conceitos-chave em filosofia (Porto Alegre: Penso, 2013), p. 18-19.