Ellen White e a ‘igreja emergente’

Publicado em 20/02/2014 por Matheus Cardoso como Igreja, Teologia

Nota do site: Este artigo não é uma defesa da “igreja emergente”. A igreja emergente é um movimento recente e bastante heterogêneo formado por cristãos de diversas denominações. Entre seus representantes há pessoas que defendem as mais diversas linhas teológicas – da mais liberal à mais conservadora. O meu objetivo, bem como do autor, é apenas analisar o conceito básico de ‘igreja emergente’, que consiste em romper com alguns aspectos da rigidez do cristianismo tradicional, buscar uma fidelidade maior às Escrituras e tornar-se relevante e compreensível para a época atual. É isso o que os adventistas têm buscado fazer desde o início de seu movimento, embora existam semelhanças e diferenças em relação à igreja emergente.

Uma das obras mais importantes desse movimento é a de Dan Kimball, A igreja emergente: cristianismo clássico para as novas gerações (São Paulo: Editora Vida, 2008). Uma interessante análise crítica da igreja emergente pode ser encontrada no livro de D. A. Carson, Igreja emergente: o movimento e suas implicações (São Paulo: Vida Nova, 2010).

Também é importante notar que eu não partilho de todas as ideias apresentadas pelo autor em outros materiais. Ele segue uma linha conhecida como “adventismo progressista”, mais liberal que a corrente principal da IASD, seguida em suas obras oficiais e representativas.

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Ellen White jamais ouviu falar sobre a igreja emergente. Nem Isaías ou Paulo. Tampouco Jesus enquanto esteve na Terra.

Então, em conversas sobre a igreja emergente, como podemos recorrer a escritores inspirados na discussão?

Essa é uma pergunta crucial para a qual irei propor uma resposta simples formada por três partes. Mas, antes disso, quero explorar a possibilidade de, em certo sentido, Ellen White ter sido uma porta-voz de uma ‘igreja emergente’.

Ellen White: uma ‘emergente’ do século 19?

Sem garantir total precisão, eu recomendaria o artigo da Wikipedia em inglês sobre “igreja emergente” (emerging church). Essa é uma boa fonte para começar a entender a complexidade do movimento. Resumindo e fazendo uma extrema simplificação, podemos dizer que a igreja emergente é uma tentativa do final do século 20 de romper com alguns aspectos da rigidez do cristianismo tradicional.

É interessante notar que Rob Bell, um porta-voz da igreja emergente, recentemente publicou O amor vence (Rio de Janeiro: Sextante, 2012), um livro que defende posições semelhantes aos adventistas sobre o inferno e a salvação de não evangelizados. Alguns evangélicos têm criticado o adventismo por sua postura liberal sobre essas doutrinas, e Rob Bell agora está recebendo o mesmo tratamento. Deveríamos ser capazes de reconhecê-lo pelas boas coisas que ele diz sem nos preocuparmos excessivamente com seus erros.

Contudo, a direita religiosa norte-americana desenvolveu um forte negativismo que ataca uma extensa lista de “males” que vão de “disciplinas espirituais” a “igreja emergente”. Alguém recentemente me enviou um link do YouTube com uma série de vídeos chamados “Know Your Enemy” (Conheça seu inimigo). Cada parte consistia num ataque a um “inimigo” do cristianismo. Infelizmente, alguns adventistas têm adotado essa retórica negativa contra a “igreja emergente”, o que torna quase impossível reconhecer os aspectos positivos do livro de Rob Bell.

Duas citações-chave de Ellen White apontam para um rumo mais saudável. A primeira: “O Senhor deseja que Seu povo siga outros métodos que não os que levam a condenar o erro, mesmo que a condenação seja justa. Ele quer que façamos alguma coisa melhor do que atirar contra nossos adversários acusações que só servem para afastá-los mais da verdade. A obra que Cristo veio fazer em nosso mundo não foi erguer barreiras, nem lançar constantemente no rosto do povo o fato de que se achavam em erro” (Testemunhos para a igreja, v. 6, p. 121).

A segunda citação vem de uma carta de 1887 escrita a Charles Boyd, que fora enviado em missão à África do Sul. Ellen White o advertiu a não enfatizar nossas doutrinas distintivas logo no início, porque elas geralmente seriam uma “enorme barreira entre você e aqueles a quem deseja alcançar”. Em vez disso, ela disse: “Fale a respeito de pontos de doutrina sobre as quais vocês estão em harmonia. Enfatize a necessidade da espiritualidade prática. Deixe claro que você é cristão, que deseja a paz e que ama essas pessoas. Que elas vejam que você é consciente. Assim você ganhará a confiança deles; e haverá tempo suficiente para as doutrinas” (Obreiros evangélicos, p. 119-120).

O adventismo como uma igreja emergente

Eu diria que, quando atacamos o conceito básico de ‘igreja emergente’, estamos negando uma parte essencial de nossa herança e perdendo uma oportunidade extraordinária de divulgar as boas-novas. Nos primeiros anos, o adventismo era claramente uma ‘igreja emergente’, um movimento contracultural (o termo técnico é “sectário”). Tais movimentos surgem quando a cultura dominante não mais parece capaz de estimular uma vida espiritual genuína. Assim, o adventismo era uma ‘igreja emergente’, buscando se libertar da rigidez ortodoxa.

Meu colega Greg Dodds, professor de história na Walla Walla University, diz em tom de bom-humor que o adventismo inicial era um movimento que reuniu todas as antigas ‘heresias’: o sábado, o sono da alma, a inexistência de um inferno eterno, a negação da Trindade [como formulada pelos credos tradicionais], uma compreensão ainda indefinida sobre a divindade de Cristo e a ausência de credos.

Mas raramente um novo movimento fica estagnado. Isso foi verdade sobre o adventismo, especialmente quanto à doutrina da Trindade e da divindade de Cristo. Assim, em 1898, no livro O desejado de todas as nações, Ellen White, embora não tenha usado a palavra “Trindade”, afirmou a plena divindade de Cristo, um elemento-chave da doutrina da Trindade. Ela escreveu: “Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada” (p. 530). Hoje, os adventistas ainda mantêm as convicções originais sobre a alma e o inferno, mas creem que Deus usou Ellen White para ajudá-los a ver nas Escrituras a plena divindade de Cristo.

Jesus, os apóstolos e o adventismo inicial

Jesus também fundou um movimento de ‘igreja emergente’, que era claramente contracultural. Ao buscar uma abordagem mais centralizada nas pessoas, Jesus menosprezou tradições judaicas fundamentais, colocando um novo vinho em odres novos, como Ele disse (veja Mateus 9:17).

Tipicamente, movimentos sectários são confrontadores, pois desafiam a situação estabelecida. Isso sem dúvida foi verdade quanto à igreja primitiva. Ao lermos o discurso de Estêvão em Atos 7, não é difícil descobrir por que ele foi apedrejado.

O adventismo também era confrontante. A mensagem do segundo anjo: “Caiu a grande Babilônia” (Apocalipse 14:8), desempenhou um papel fundamental, especialmente quando ligado a Apocalipse 18:4: “Sai dela, povo Meu”.

Mas, se Jesus é levado a sério, como Ellen White fazia, então um movimento sectário começa a refletir melhor os métodos de Jesus. O livro O desejado de todas as nações, publicado em 1898, é magistral nesse aspecto. O confronto continuou a fazer parte da abordagem, mas agora o tom era dramaticamente diferente. A partir de então, Ellen White destacava que havia “lágrimas” na voz de Jesus enquanto emitia Suas “severas repreensões” (O desejado de todas as nações, p. 353).

Além disso, o método preferido de Ellen White passou a ser de cooperação em vez de confrontação. Já em 1887, na carta que citamos, Ellen White orientava os adventistas a trabalhar com as pessoas em “pontos de doutrina sobre as quais vocês estão em harmonia”.

Um exemplo surpreendente: O grande conflito

Contudo, é provável que o mais surpreendente seja a maneira como Ellen White seguiu o princípio de trabalhar com os outros em pontos de concordância ao escrever O grande conflito, um de seus livros aparentemente mais ‘confrontadores‘. Em realidade, nesse livro, Ellen White enfatizou os pontos em harmonia ao tratar dos reformadores e dos protestantes.

Assim, Ellen White celebra John Wycliffe como “a estrela da manhã da Reforma” e o tradutor da Bíblia para o inglês (p. 79-96). Mas Wycliffe acreditava na predestinação e não aceitava de maneira alguma a separação entre igreja e Estado, pontos dos quais Ellen White diferia bruscamente dele. Mas ela não menciona essas distrações. Ela focaliza os pontos com os quais concordava.

Da mesma forma, ela enaltece Martinho Lutero por seu ensino sobre a justificação pela fé, sua denúncia dos abusos da igreja e seu trabalho de tradução da Bíblia para o idioma do povo (p. 120-170). Ela não fala nada sobre a crença de Lutero na predestinação, sua brutal repressão da Revolta dos Camponeses nem de seu agressivo antissemitismo. Ela focalizou os pontos com os quais concordava.

Como último exemplo, no capítulo sobre a Revolução Francesa (p. 211-236), Ellen White descreve o trabalho de vários reformadores, sendo João Calvino o mais notável. Ela fala enfaticamente de seus esforços para estabelecer os princípios do protestantismo, mas não menciona sua crença na predestinação nem sua ditadura em Gênova (1541-1564), quando 58 dissidentes foram mortos e 76 foram banidos. Ellen White enxergou o lado positivo, focalizando os pontos com os quais concordava.

Em poucas palavras, Ellen White foi de fato uma defensora do conceito básico de uma ‘igreja emergente’. Ela não sentia qualquer obrigação de atacar ou mesmo mencionar pontos de discordância desnecessariamente. Ela simplesmente praticava o que ensinava: “O Senhor deseja que Seu povo siga outros métodos que não os que levam a condenar o erro, mesmo que a condenação seja justa” (Testemunhos para a igreja, v. 6, p. 121).

Textos antigos, questões atuais

Então, como podemos usar escritores inspirados ao tratar de questões como a igreja emergente? Sugiro três passos:

Primeiro, olhe para Jesus, buscando em Sua vida e ensinos os princípios que podem ser aplicados a outros textos bíblicos e em nossa época.

Segundo, ilustramos esses princípios com as aplicações que encontramos na Bíblia.

Terceiro, comparamos as aplicações bíblicas com as situações e circunstâncias atuais.

Com essa abordagem, poderemos não encontrar um texto específico para cada questão que estamos discutindo. E isso é preocupante, e mesmo inaceitável, para aqueles que desejam somente aplicações claras. Mas se persistimos em achar um texto específico para cada questão, o resultado pode ser altamente seletivo. A Bíblia, por exemplo, não diz nada contra tabaco ou drogas – então, a lógica seria: “Não podemos dizer nada contra essas coisas”.

Lembro-me de uma conversa com um membro da igreja que discordava do meu apoio a mulheres no ministério pastoral porque Paulo – pelo menos à primeira vista –  afirmou que mulheres não deveriam ensinar nem ter autoridade sobre os homens (1 Timóteo 2:12). No restante da conversa, a pessoa acabou argumentando em favor da escravidão, da poligamia e da vingança de sangue – com “textos-prova” para tudo…

Mas, se levarmos a sério Jesus – e o pecado –, podemos entender por que nem sempre encontramos bons “textos-prova” para tudo o que queremos e por que alguns “textos-prova” que encontramos não devem absolutamente ser usados hoje.

Vamos começar com o princípio mais simples enunciado por Jesus: “Em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” (Mateus 7:12, NVI).

Isso é simples, mas não é fácil. Sendo que o pecado produziu um impacto tão devastador na humanidade, precisamos constantemente refletir sobre como adaptar a mensagem de Deus a pessoas específicas em situações específicas. Quando nós as tratamos como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar delas, precisamos seguir o exemplo de Paulo em ser “tudo para com todos”, para “salvar alguns” (1 Coríntios 9:22, NVI).

Perigos da adaptação’

Mas essa ‘adaptação’ é profundamente perturbadora para alguns, inclusive para muitos cristãos evangélicos. Por exemplo, quando eu estava procurando uma editora para o meu livro Who’s Afraid of the Old Testament God? [Quem tem medo do Deus do Antigo Testamento?] (Paternoster Press, 1988; Pacesetters, 2003), um professor da Universidade de Edimburgo (Escócia) notou que a editora evangélica InterVarsity jamais iria considerar o meu livro, porque eu havia enfatizado demais a ‘acomodação’ (ou adaptação) divina.

Embora Ellen White não tenha escrito diretamente muito sobre a ‘acomodação’ divina, em 1890 ela comentou sobre o “vingador de sangue”, que exigia ao “parente chegado” redimir a honra da família ao seguir o matador. As cidades de refúgio foram estabelecidas como casas a meio caminho, atenuando alguns dos aspectos mais horrendos do costume (veja Números 35:9-34). Ellen White chamou esse plano “misericordiosa disposição” que iria “garantir a segurança dos que, acidentalmente, tirassem a vida”. Mas as palavras seguintes são reveladoras: “O Senhor não achou conveniente abolir esse costume naquela ocasião” (Patriarcas e profetas, p. 515).

Ellen White não explica por que o Senhor não podia abolir imediatamente esse costume terrível. Mas, se Deus tem o objetivo de ser “tudo para com todos”, a mudança não poderia vir imediatamente. Ele precisava vencer; Ele precisava convencer. Não podia simplesmente impor Seu poder.

A magnífica explicação de Ellen White desse princípio se baseia em sua própria experiência com a reforma de saúde. Ela argumentou: “Não devemos ir mais depressa do que nos possam acompanhar aqueles cuja consciência e intelecto estão convencidos das verdades que defendemos. Devemos ir ao encontro do povo onde ele está” (Testemunhos para a igreja, v. 3, p. 20).

Ela continua dizendo que alguns levaram “muitos anos” para chegar a uma compreensão madura sobre a mensagem de saúde: “Se concedêssemos ao povo tanto tempo quanto nós levamos para chegar ao atual estado avançado na reforma, seríamos muito pacientes com eles, e permitiríamos que avançassem passo a passo, como fizemos nós, até que seus pés estivessem firmemente estabelecidos na plataforma da reforma de saúde. Devemos, porém, ser muito cautelosos para não avançar muito depressa, para que não sejamos obrigados a voltar atrás. Em matéria de reformas, é melhor ficar um passo aquém da meta do que avançar um passo além. E se houver algum erro, seja do lado mais favorável ao povo” (Ibid., p. 20-21).

A igreja emergente está buscando realizar uma tarefa necessária, mas os resultados sempre serão instáveis e parciais. Isso é inevitável quando o Espírito Santo guia os filhos de Deus a desbravar nossos territórios. Mas não precisamos sempre atacá-la por seus erros. Em vez disso, devemos nos alegrar com ela nos pontos com os quais podemos concordar. É isso o que aprendemos com Ellen White, a notável porta-voz de uma ‘igreja emergente’ do século 19.

Alden Thompson, Ph.D., é professor de teologia na Walla Walla University.

Fonte: Adventist Today, verão de 2011, p. 20-21, 29.