Como se reuniam os primeiros adventistas?

Publicado em 13/05/2014 por Matheus Cardoso como Igreja
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Ao contrário do que talvez imaginemos, a vida religiosa dos adventistas atuais seria novidade para os adventistas da época de Ellen White. Especialmente se estudarmos as suas principais reuniões como igreja. Nossa fórmula atual é: Escola Sabatina e culto de adoração aos sábados de manhã (a principal reunião adventista, e que tem o sermão como parte principal); culto jovem nas tardes de sábado; culto evangelístico domingo à noite (que tem o sermão como parte principal) e culto de oração nas noites de quarta-feira (que também tem o sermão como parte principal).

Com a provável exceção da Escola Sabatina, todas as nossas reuniões hoje seriam algo diferente do que praticavam os adventistas do século 19. Para discutirmos o formato de nossos cultos e nossa liturgia, devemos examinar o que aconteceu em nossa história e como nossos cultos atuais foram moldados.

A herança adventista perdida

Os primeiros adventistas tomaram emprestada a ideia da “reunião de classe” metodista para realizar o que chamavam de “reuniões sociais”. As reuniões sociais dos adventistas aconteciam depois do culto ou depois de uma pregação e davam oportunidade para que as pessoas compartilhassem suas experiências e pensamentos.

Hoje pensamos em ter um apelo no fim do sermão. Naquele tempo, o apelo era a reunião social, em que todos que desejassem tinham a oportunidade de compartilhar e responder conforme o Espírito Santo impressionava o coração. As pessoas se sentiam abertas o suficiente para compartilhar seus problemas e erros sem serem condenadas.

As reuniões sociais eram a estrutura básica de funcionamento da comunidade adventista, e não havia muito lugar para meros espectadores nessas reuniões.

Algumas cartas enviadas à Review and Herald descrevem a vida dos adventistas aos sábados: “Cada sábado nos reunimos para orar e para a reunião social” (J. Hoffer, Review and Herald, 2 de julho de 1861). “No início de cada sábado nos encontramos para a oração e a exortação, das quais recebemos uma bênção. A manhã de sábado é ocupada com uma reunião social, Escola Sabatina e classe bíblica” (Irmão Holiday, Review and Herald, 2 de julho de 1861).

Os pioneiros e a reunião social

Quando lemos o periódico oficial da igreja, Advent Review and Sabbath Herald, fica claro que as reuniões sociais eram consideradas parte regular da vida da igreja. De fato, os adventistas em geral consideravam essas reuniões mais importantes do que os cultos de pregação. A pregação podia ser (e era) frequentemente omitida, mas a reunião social nunca era deixada de lado. Uriah Smith descreveu a reunião social do adventismo primitivo assim: “Uma reunião caracterizada por testemunhos vivos que animavam a alma, olhos radiantes, vozes de louvor, exortações sérias e comovedoras e frequentemente lágrimas; cenas nas quais a fé e o amor se acendiam novamente” (Review and Herald, 23 de maio de 1865).

Nesta citação de Tiago White, podemos captar o espírito dessas reuniões adventistas: “As reuniões sociais eram marcadas por grande solenidade. Pecados eram confessados com lágrimas, e havia uma abertura generalizada diante de Deus, poderosas súplicas pedindo perdão e uma disposição para encontrar-se com o Senhor em Sua vinda. E os humildes discípulos do Senhor não buscavam Sua face em vão. Antes do fim da reunião, muitos testemunhavam com lágrimas de alegria que haviam buscado ao Senhor e O encontraram, e experimentaram a doçura dos pecados perdoados” (Tiago White, Life Incidents [Battle Creek, MI: Steam Press of Seventh-day Adventist Publishing Association, 1868], p. 167).

As reuniões sociais variavam, mas os elementos comuns eram a oração, o testemunho, as palavras de ânimo e os cânticos. Os testemunhos eram curtos e objetivos. No entanto, por vezes alguns recorriam à “pregação” como parte de seu testemunho (começavam testemunhando e de repente estavam pregando). Isso frequentemente provocava admoestações para que os testemunhos se mantivessem curtos e ao ponto.

Eles não estudavam a Bíblia?

Em todas as descrições das reuniões sociais adventistas falta um elemento: a menção de estudo da Bíblia. Com a grande ênfase dos adventistas no estudo da Bíblia, essa omissão parece assombrosa. Mas era planejada: eles estudavam a Bíblia em outras ocasiões, especialmente na Escola Sabatina. A reunião social não era o momento de estudo da Bíblia; era totalmente relacional. E esse modelo de reunião era utilizado tanto nos pequenos como nos grandes grupos.

Os adventistas não negligenciavam o estudo da Bíblia em grupo, mas o acompanhavam das reuniões sociais onde podiam compartilhar sua vida em Cristo. Essa abordagem fez com que os adventistas ficassem fortes tanto em sua compreensão da Bíblia como em seu relacionamento de uns para com os outros. Nosso método moderno, porém, criou pessoas que não são fortes nem no estudo da Bíblia nem nos relacionamentos.

Era a reunião mais importante

Durantes várias décadas, mesmo após a organização da Igreja Adventista, as igrejas não tinham pastores regulares. Todas as igrejas eram ensinadas a cuidarem de si mesmas, enquanto os pastores fundavam igrejas, evangelizavam e formavam novos grupos de crentes. Só ocasionalmente havia uma pastor presente e um sermão. A maioria dos sermões para os membros ocorria na reunião campal anual, e ainda assim continha um tom evangelístico.

Como, então, os primeiros adventistas se mantinham na fé sem a presença constante de um pastor fixo entre eles? Eles haviam aprendido a estudar a Bíblia por si mesmos e liam o periódico oficial da igreja, Review and Herald – individual e coletivamente. E quando se reuniam, sempre tinham uma reunião social. Os adventistas geralmente tinham a Escola Sabatina, que era seguida por uma reunião social, e raramente pela pregação. Era principalmente por meio da reunião social que os primeiros adventistas sustentavam sua vida espiritual. Assim, criaram uma comunidade.

Não dependiam de pregadores

Evidentemente, esse era o plano de organização durante todo o século 19 e até o início do século 20. As reuniões sociais não aconteciam apenas na ausência de um pregador. Mesmo décadas após a organização da igreja e o estabelecimento definitivo do ministério pastoral adventista, as reuniões sociais continuaram sendo o principal momento da comunidade adventista. Os adventistas lamentavam o fato de que a igreja de Battle Creek – a maior igreja adventista – estivesse perdendo muitas bênçãos porque confiava nos sermões dos pregadores e não nas reuniões sociais para manter sua vida espiritual.

Em 1862, um pregador escreveu: “A igreja de Battle Creek precisa menos desses pregadores do que qualquer igreja do estado pelo fato de ter mais membros ativos que todas as outras, muitos deles com vasta experiência. Às vezes pregamos para eles, mas imediatamente depois concluímos que teria sido melhor uma reunião social. E quando passamos um sábado em uma outra igreja, ao voltarmos somos informados de que os irmãos desfrutaram de uma excelente reunião, a melhor de vários sábados. Assim, qual a utilidade de nós pregadores nos colocarmos no meio do caminho desses membros experimentes e ativos?” (Review and Herald, 22 de julho de 1862).

Você consegue imaginar os membros da igreja dizendo que passaram melhor sem um pregador do que com um? Os próprios pregadores sentiam que estavam atrapalhando quando ocupavam o púlpito no sábado de manhã. As manhãs de sábado nas igrejas adventistas não era tanto um momento para pregar a espectadores, mas para se relacionar, dar testemunhos e louvar. A reunião social, com seus testemunhos, orações, cânticos e palavras de encorajamento mútuo, era muito mais capaz de sustentar a fé do que a pregação dos melhores pregadores da denominação em Battle Creek.

As reuniões sociais não eram somente realizadas nas igrejas locais. Essa prática era também parte vital de outros encontros adventistas, até mesmo das assembleias da Associação Geral. Um exame da agenda dessas assembleias, ainda no início do século 20, revela que as reuniões sociais eram incluídas como parte da agenda regular devocional e administrativa. Para facilitar mais testemunhos nesses grandes encontros, eles dividiam a congregação em vários grupos, geralmente por origem étnica.

Ellen White e a reunião social

Provavelmente ninguém tenha escrito mais sobre as antigas  reuniões sociais adventistas do que Ellen White. Ela não só participou de muitas, mas também deu vários conselhos sobre como efetivamente conduzir tais reuniões. As quase 300 referências às reuniões sociais em seus escritos nos dão uma imagem bem exata da vida na Igreja Adventista primitiva com relação a essas reuniões.

Ellen White ligou a liderança das reuniões sociais com o treinamento do povo de Deus para trabalhar para Ele. Ela escreveu: “Apesar de a reunião social ser algo novo [para os adventistas europeus], estão aprendendo na escola de Cristo e vencendo o medo e o temor. Sempre lhes lembramos que a reunião social será a melhor reunião, onde serão treinados e educados para serem testemunhas de Cristo” (Manuscrito 32, 1894). Na mente de Ellen White, a atividade missionária surgia do compartilhamento relacional que ocorria nas reuniões sociais. É por intermédio da reunião social que os membros adquiriam a experiência necessária para se sentirem livres para testemunhar de sua fé no mundo. Talvez seja esse o motivo por que tão poucos cristãos compartilham sua fé hoje. A perda da reunião social não só afetou a vida relacional da igreja, mas afetou muito o seu potencial de testemunhar na comunidade maior.

Ellen White considerava a reunião social como sendo vital para a vida espiritual da igreja. Ela não podia imaginar a igreja sem tais reuniões. O progresso das igrejas nas quais ela participou pessoalmente sempre incluía a realização da reunião social. Essas reuniões sociais eram tão vitais para Ellen White que ela frequentemente dizia que, se fosse para escolher entre culto com uma pregação e a reunião social, que se ficasse com a segunda. Poderia existir uma reunião social sem um sermão, mas não um sermão sem uma reunião social. “Se menos palavras de sabedoria humana e mais das palavras de Cristo fossem faladas, se houvesse menos sermões e mais reuniões sociais, encontraríamos uma atmosfera diferente a penetrar nossas igrejas e reuniões campais. Sessões de oração seriam realizadas para o derramamento do Espírito Santo” (Manuscript Releases, v. 2, p. 21).

Ellen White aconselhou que as reuniões sociais fossem muito interessantes. “As reuniões sociais e de oração devem ser as mais interessantes de todas que são realizadas. Planos devem ser feitos e sabedoria buscada de Deus para dirigir essas reuniões a fim de que sejam interessantes e atrativas. As pessoas têm fome do pão da vida. Se elas o encontrarem na reunião de oração, irão até lá para recebê-lo. Falas e orações longas e tediosas não devem ocorrer em nenhum lugar, especialmente nas reuniões sociais. Elas cansam os anjos e as pessoas que as escutam. Nossas orações devem ser curtas e objetivas. Deixe o Espírito de Deus invadir o coração dos adoradores, e varrerá dali toda formalidade e enfado” (Review and Herald, 10 de outubro de 1882).

Na realização de grandes reuniões sociais, Ellen White aconselhou que a congregação fosse dividida em grupos menores para que todos tivessem oportunidade de falar. Um líder deveria ser apontado para cada um dos grupos (Signs of the Times, 19 de outubro de 1876). Ela também aconselhou a tornar as reuniões sociais do maior interesse para as crianças (Review and Herald, 14 de abril de 1885).

Quando pesquisamos as expressões “reunião social” (social meeting) e “reuniões sociais” (social meetings) no site dos arquivos da Associação Geral, vemos um grande número de ocorrências anuais até o início da década de 1920, tornando-se cada vez mais raras até desaparecerem por completo na década de 1950. Lembramos que Ellen White faleceu em 1915.

Conclusão

Os adventistas tinham reuniões sociais em vários momentos e formatos: depois de uma pregação para um grupo maior ao sábados, depois da Escola Sabatina, depois de uma classe bíblica ou em pequenos encontros nos lares. Essas eram as principais reuniões adventistas.

Esse era o momento em que as pessoas se sentiam seguras para compartilhar seus problemas e buscar a ajuda dos outros, sabendo que não seriam condenadas, mas auxiliadas. A abertura tão evidente nessas reuniões sociais enquanto os crentes abertamente compartilhavam parece estranha aos ouvidos adventistas de hoje, quando a maioria de nós se esconde atrás de máscaras. Certamente havia coisas escondidas entre esses adventistas primitivos, mas com certeza havia mais franqueza do que na igreja hoje.

As reuniões sociais foram sancionadas fortemente por Ellen White (que escreveu extensamente sobre elas), mas entraram em declínio logo após sua morte em 1915. Gradualmente, pastores foram apontados sobre as congregações e as reuniões sociais foram substituídas pela reuniões de oração, à medida que o adventismo imitava e absorvia os modelos protestantes e evangélicos.

A reunião de oração, por sua vez, aos poucos foi se transformando em mais uma reunião de pregação ou de estudo bíblico, onde a igreja assume uma postura passiva de espectadores, de modo que perdemos a oportunidade exclusiva de testemunhar, orar e animar uns aos outros em comunidade. Hoje, há uma tentativa de se resgatar essa herança relacional adventista com o programa de pequenos grupos, enquanto a estrutura de cultos passivos herdados do modelo de Constantino permanece inalterada.

É hora de restaurar as reuniões relacionais como parte vital da experiência semanal adventista. É chegada a hora de incluirmos pequenos grupos relacionais semanais em nosso calendário adventista. Mais do que isso, que se tornem um elemento dominante e vital do culto adventista novamente. Somente assim poderemos ser fiéis às Escrituras, a Ellen White e à nossa herança adventista.

Russell Burrill, doutor em Ministério (Fuller Theological Seminary), foi diretor do Instituto de Evangelismo da Divisão Norte-Americana e professor no Seminário Teológico da Andrews University (EUA).

Adaptado de Como reavivar a igreja do século 21: o poder transformador dos pequenos grupos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005), p. 117-146. A ideia básica, o título e os intertítulos foram retirados deste artigo.