As Escrituras, a tradição e a teologia

Publicado em 26/07/2014 por Matheus Cardoso como Bíblia, Teologia
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“Quem não conhece sua própria história não sabe por que é como é, e portanto não tem a liberdade de ser de outro modo. Quem, por outro lado, começa a compreender por que é de certo modo, começa também a descobrir a possibilidade de ser diferente” — afirma Justo Gonzáles em sua obra Retorno a la Historia del Pensamiento Cristiano — tres tipos de teologia, lançada originalmente em inglês e publicada em espanhol (Ediciones Kairos, 2009) com adaptação feita para o contexto da América Latina.

Afirmando a importância da busca das origens, Gonzáles adverte, entretanto, que não é a palavra dos teólogos que dura para sempre, mas a Palavra que os teólogos estudaram. Por mais que respeitemos nossos antepassados, considerar seus escritos como teologia definitiva equivale a trair exatamente seu mais precioso legado e um dos pontos essenciais da Reforma: a primazia das Escrituras sobre a tradição. Devemos ouvir a tradição, mas também envidar todos os esforços para que as Escrituras ganhem voz contemporânea. Cada geração deve buscar nas Escrituras a voz de Deus para hoje.

Desafiado nessas duas direções — conhecer a tradição e atualizar as Escrituras –, Gonzáles faz o resgate histórico do que chama de “três tipos de teologia” presentes na igreja ao fim do século segundo e início do século terceiro da era cristã. Para efeitos didáticos e buscando aspectos gerais que determinavam suas ênfases fundamentais, Gonzáles escolhe três protagonistas para identificar as três teologias: Tertuliano, Orígenes e Irineu.

A obra de Gonzáles analisa como as diferentes tradições compreendiam “Deus, a criação e o pecado original”, “o caminho e a meta da salvação”, e como faziam uso das Escrituras, isto é, seus pressupostos hermenêuticos. A respeito da salvação, por exemplo, Tertuliano (160–220 d.C.) acreditava que o problema do ser humano consistia na quebra da Lei de Deus, e portanto havia adquirido uma dívida legal, e nesse caso a salvação implicaria a satisfação da justiça de Deus.

Orígenes (185–253), por sua vez, compreendia que o problema humano não era a dívida contraída pela quebra da lei, mas sua incapacidade de contemplar a Deus, isto é, sua ignorância. A salvação, nesse caso, não seria resultado de alguém que pagasse a dívida humana, mas o favor de alguém que lhe trouxesse iluminação para que o mundo da matéria, resultado do pecado, fosse deixado para trás e todos os seres voltassem ao estado original, puramente intelectual, quando poderiam regressar à contemplação de Deus na dimensão absolutamente espiritual, cumprindo assim o propósito para o qual haviam sido criados.

Particularmente, mais me impressiona a compreensão de Irineu (130–202), para quem o problema humano é que estamos sujeitos ao mal e ao Maligno, e necessitamos, portanto, de libertação. Irineu descreve a obra de Jesus Cristo como vitória sobre todos os poderes que oprimem os seres humanos e a criação de Deus. Gonzáles faz um resumo dizendo que Jesus, por sua paixão e ressurreição, “levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens”, destruiu a morte, pôs fim à corruptibilidade e manifestou a vida. Como descendente de Adão, e justamente por isso, Jesus, em sua carne, triunfou sobre todos os poderes do mal e despojou o Maligno, tomou para si as chaves da morte e do inferno, obtendo para sempre a vitória por meio de sua ressurreição. Por meio de sua encarnação, vida, morte e ressurreição, Jesus veio a ser o novo Adão, cabeça de uma nova humanidade — “quem está em Cristo é nova criação”. Em Adão, a velha criação se tornou sujeita a Satanás e, em consequência, cativa do pecado e da morte. Em Jesus Cristo, o novo Adão, a nova criação se torna vencedora sobre todos os poderes do mal e recebe a promessa da ressurreição. A consumação da salvação implica não apenas a restauração de toda a criação, que finalmente estará livre da corrupção, como também a perfeita comunhão entre Deus e os seres humanos, isto é, o privilégio de nos tornarmos “participantes da natureza divina”. Por isso, Irineu compreendeu a “adoção como filhos de Deus” como a possibilidade de “nos tornarmos, pela graça, aquilo que Deus é por natureza”: “Deus se fez Homem, para que os homens possam ser feitos deuses”; ou então: “Deus-Filho se fez aquilo que somos, para que viéssemos a ser aquilo que ele é”.

Toda vez que você ouvir alguém afirmando a superioridade de seu conjunto de crenças, pergunte a respeito das raízes de sua teologia, seus principais protagonistas e a evolução histórica de seu pensamento. Esses três exemplos apontam para o fato de que a verdade teológica e a heresia são questões de pontos de vistas, e que a história do pensamento cristão é uma referência imprescindível para quem deseja caminhar à luz das Escrituras Sagradas.

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”.

Este artigo foi retirado da versão on-line de Ultimato, julho-agosto de 2014, que, neste momento, está disponível apenas a assinantes. Clique aqui e receba gratuitamente o número atual da revista.