Alguns versículos sobre joias

Publicado em 17/06/2014 por Matheus Cardoso como Bíblia

Tradicionalmente, os adventistas, como vários outros grupos cristãos, não costumam usar joias e certos tipos de adornos. Existem argumentos a favor e contra essa compreensão, e nem sempre é fácil avaliar a legitimidade de cada argumento. Ainda assim, com base em respeitadas fontes que defendem essa posição tradicional, é possível ao menos ter certeza de quais argumentos não devem ser usados.

Atualmente, alguns adventistas têm usado determinados argumentos reconhecidos como ilegítimos. Quero tratar especificamente de quatro passagens bíblicas às vezes citadas fora de contexto:

  • Gênesis 35:2-4;
  • Êxodo 33:3-6;
  • Levítico 19:28;
  • Isaías 3:16-18.

A fim de compreender melhor o sentido desses textos, vamos consultar duas autorizadas fontes adventistas. A primeira é a Bíblia de estudo produzida pela sede mundial da IASD, Andrews Study Bible (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2010). A segunda é o estudo adventista mais importante já publicado sobre o assunto, O uso de joias na Bíblia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005), escrito pelo Dr. Ángel Manuel Rodríguez, que durante vários anos foi diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica da sede mundial da IASD. Além dessas citações, leia atentamente cada passagem bíblica, cujo contexto é citado propositadamente.

O meu objetivo não é chegar a uma conclusão sobre o uso de joias, mas destacar o fato de que não podemos usar argumentos ilegítimos, ainda que seja para defender ideias corretas. Ellen White adverte:

É importante que, ao defender as doutrinas que consideramos artigos fundamentais da fé, nunca nos permitamos o emprego de argumentos que não sejam inteiramente retos. Eles podem fazer calar um adversário, mas não honram a verdade. Devemos apresentar argumentos legítimos, que não somente façam silenciar os oponentes, mas que suportem a mais acurada e perscrutadora averiguação (Testemunhos para a igreja, v. 5, p. 708).

Gênesis 35:2-4

Deus disse a Jacó: “Suba a Betel e estabeleça-se lá, e faça um altar ao Deus que lhe apareceu quando você fugia do seu irmão Esaú”. Disse, pois, Jacó aos de sua casa e a todos os que estavam com ele: “Livrem-se dos deuses estrangeiros que estão entre vocês, purifiquem-se e troquem de roupa”. […] Então entregaram a Jacó todos os deuses estrangeiros que possuíam e os brincos que usavam nas orelhas, e Jacó os enterrou ao pé da grande árvore, próximo a Siquém (Gn 35:1-2, 4, NVI).

“A purificação ritual era parte da resposta da família de Jacó (veja Êx 29:4-9; Lv 8:6-13) ao chamado divino” (Andrews Study Bible, p. 50).

“O Antigo Testamento rejeita o uso religioso e mágico de joias por parte das pessoas, associando-o diretamente com a idolatria. Quando Jacó estava retornando para Betel, o Senhor ordenou que ele e os que o acompanhavam se desfizessem de seus deuses e se consagrassem a Ele (Gn 35:4). Como resposta, entregaram a Jacó todos os deuses estrangeiros que tinham em mãos, e as argolas que lhes pendiam das orelhas. Esses eram obviamente eram obviamente ornamentos que traziam algum tipo de significado religioso, possivelmente com impressões de ícones sobre eles. A implicação é que esse tipo de joia era incompatível com o culto a Jeová” (Rodríguez, O uso de joias na Bíblia, p. 42).

Êxodo 33:3-6

[Contexto: depois do episódio do bezerro de ouro.] Depois ordenou o Senhor a Moi­sés: “Saia deste lugar, com o povo que você tirou do Egito, e vá para a terra que prometi com juramento a Abraão, a Isaque e a Jacó, dizendo: Eu a darei a seus descendentes. Mandarei à sua frente um anjo e expulsarei os cananeus, os amor­reus, os hititas, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Vão para a terra onde há leite e mel com fartura. Mas Eu não irei com vocês, pois vocês são um povo obstinado, e Eu poderia destruí-los no caminho”.

Quando o povo ouviu essas palavras terríveis, começou a chorar, e ninguém usou enfeite algum. Isso porque o Senhor ordenara que Moisés dissesse aos israelitas: “Vocês são um povo obstinado. Se Eu fosse com vocês, ainda que por um só momento, Eu os destruiria. Agora tirem os seus enfeites, e Eu decidirei o que fazer com vocês”. Por isso, do monte Horebe em diante, os israelitas não usaram mais nenhum enfeite (Êx 33:1-6, NVI).

“‘Tiraram de si’ (ou ‘não usaram mais’) – O mesmo termo usado em Êxodo 32:2. A ausência de enfeites (ou atavios) com frequência é sinal de lamento (Ez 26:16-27) ou de punição. A fabricação do bezerro de ouro estava ligada aos brincos de ouro” (Andrews Study Bible, p. 117).

“Os eruditos têm tomado a remoção das joias como sinal de lamento, o que é compatível com as práticas do antigo Oriente Próximo, e como teste de seu arrependimento. Outros argumentam que esse não era sinal de lamento, mas de concordância com a ordem de Deus a Moisés (v. 5). Também existe a possibilidade de que o pedido tenha sido baseado no fato de que estivessem usando joias ligadas a deuses estrangeiros. […] É realmente difícil saber por quanto tempo os israelitas não usaram joias” (Rodríguez, O uso de joias na Bíblia, p. 42-43).

Levítico 19:28

Pelos mortos não ferireis a vossa carne; nem fareis marca nenhuma sobre vós (ARA).

Muitos costumam aplicar esse versículo à tatuagens modernos. Ultimamente, alguns têm usado o mesmo texto para falar também contra o uso de joias (usar brincos seria “ferir”, ou cortar a carne). Mas a passagem não se refere a nenhum desses casos.

“Cortar o cabelo dos lados da cabeça, aparar as pontas da barba, cortar-se e fazer tatuagens (v. 27-28) eram práticas de luto da religião canaanita (Dt 14:1-2; 1Rs 18:28; Jr 48:37)” (Andrews Study Bible, p. 152).

Isaías 3:16-18

O Senhor diz: Por causa da arrogância das mulheres de Sião, que caminham de cabeça erguida, flertando com os olhos, desfilando com passos curtos, com enfeites tinindo em seus calcanhares, o Senhor rapará a cabeçadas mulheres de Sião; o Senhor porá a descoberto as suas vergonhas. Naquele dia o Senhor arrancará os enfeites delas: as pulseiras, as testeiras e os colares; os pendentes, os braceletes e os véus, os enfeites de cabeça, as correntinhas de tornozelo, os cintos, os talismãs e os amu­letos; os anéis e os enfeites para o nariz; as roupas caras, as capas, as mantilhas, e as bolsas; os espelhos, as roupas de linho, as tiaras e os xales. Em vez de perfume haverá mau cheiro, em vez de cintos, corda, em vez de belos penteados, calvície, em vez de roupas finas, vestes de lamento, em vez de beleza, cicatrizes. Seus homens cairão ao fio da espada; seus guerreiros morrerão no combate (Is 3:16-25, NVI).

“O ataque de Isaías contra as joias […] era uma condenação das joias como símbolo religioso [isto é, pagão] e social e como expressão de orgulho. […] A presença de joias religiosas e mágicas na lista de Isaías 3 indica que o orgulho das ‘filhas de Sião’ não se baseava apenas em sua segurança financeira, beleza ou posição social, mas especialmente na segurança psicológica que as peças de joias religiosas e mágicas lhes proporcionavam. Foi esse tipo de orgulho que se tornou o principal alvo do discurso profético. […] Esse tipo de joia se relaciona com a idolatria no Antigo Testamento. […]

“As ‘tornozeleiras’ ou correntinhas para os tornozelos estavam associadas a estatuetas da fertilidade nas culturas vizinhas e expressavam as crenças religiosas de quem as usava. Agora se sabe que as ‘cintas’ designam pendentes num colar, representando o deus sol, e que o termo hebraico pode ser traduzido como ‘disco do sol/da estrela’. Os ‘crescentes’ eram ornamentos em forma de meia-lua (cf. Jz 8:21), representando uma divindade. […] [As ‘caixinhas de perfume’, ou talismãs eram] um tipo de amuleto relacionado com o culto aos mortos, o qual poderia proteger seu usuário do mal ou então ser uma fonte de bênçãos” (Rodríguez, O uso de joias na Bíblia, p. 43, 38-39).

Conclusão

Segundo as próprias fontes adventistas que argumentam contra o uso de joias, nenhum desses quatro textos bíblicos (Gn 35:2-4; Êx 33:3-6; Lv 19:28; Is 3:16-18) pode ser usado em defesa dessa compreensão. Se podemos ou não usar joias, isso deve ser determinado através de outros argumentos (o que inclui outros textos bíblicos).