A essência da Torá

Publicado em 02/08/2014 por Matheus Cardoso como Bíblia
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No judaísmo, o princípio supremo da Lei de Deus é chamado pikuach nefesh (“a preservação da vida humana”). Uma de suas bases se encontra em Levítico 18:5, em que Deus diz: “Obedeçam aos Meus decretos e ordenanças, pois o homem que os praticar viverá por eles”. O propósito da Lei é a vida e o bem-estar humano. Disso os rabinos concluíram que a vida humana (o “espírito” da Lei) é mais importante que o cumprimento externo de uma ordem (a “letra” da Lei).

Com base nesse princípio, os judeus desenvolveram outro grande princípio, chamado ya’avor v’al ye’hareg (“transgredir e não morrer”). Ele se baseia, dentre outros textos, em Levítico 19:16: “Não se levantem contra a vida do seu próximo”. Deve-se fazer todo o possível para preservar a vida de uma pessoa. Por isso, um judeu não somente pode, mas deve violar qualquer um dos 613 mandamentos da Lei de Deus (a Torá) para salvar uma vida (com exceção de três mandamentos: idolatria, imoralidade sexual e assassinato). Na maioria dos casos, mesmo a integridade de uma parte do corpo está incluída na “preservação da vida”. A Lei é um meio, e não um fim em si mesmo.

Acredito que é nesse contexto que devemos entender alguns dos ensinos aparentemente mais revolucionários de Jesus. Certa vez, num diálogo a respeito do sábado, Ele disse aos fariseus:

Ou vocês não leram na Lei que, no sábado, os sacerdotes no templo profanam esse dia e, contudo, ficam sem culpa? […] “Desejo misericórdia, não sacrifícios” [Oseias 6:6]. […] Qual de vocês, se tiver uma ovelha e ela cair num buraco no sábado, não irá pegá-la e tirá-la de lá? Quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é permitido fazer o bem no sábado (Mateus 12:5, 7, 11-12). O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado (Marcos 2:27).

O raciocínio de Jesus, talvez estranho para muitos de nós, fazia todo o sentido para os fariseus. Afinal, foram eles que haviam formulado os grandes princípios pikuach nefesh (“a preservação da vida humana”) e ya’avor v’al ye’hareg (“transgredir e não morrer”). Por isso, nesses diálogos, os fariseus não tinham respostas para oferecer a Jesus. Ele não estava fazendo nada mais do que repetir o que eles próprios ensinavam diariamente ao povo.

O problema com muitos fariseus era mais prático do que teológico. É por isso que Jesus advertiu a respeito deles: “Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam” (Mateus 23:3).