A arqueologia e a Bíblia

Publicado em 22/05/2014 por Matheus Cardoso como Bíblia
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Jeú, rei de Judá, paga tributo a Salmaneser (840 a.C.)

Há vários anos, a rede de TV americana Public Broadcasting Service (PBS) levou ao ar um programa especial sobre o Gênesis. Embora o programa tenha recebido muitas críticas favoráveis, uma pergunta que aparentemente ficou na mente de muitas pessoas foi pronunciada de maneira aberta no artigo da revista americana Newsweek, de 20 de outubro de 1996, cujo título era: “Mas tudo isso realmente aconteceu?” A capa da edição de 25 de outubro de 1999 do periódico U.S. News & World Report trouxe uma pintura que representava Eva oferecendo uma maçã para Adão e, abaixo, a indagação: “A Bíblia é verdadeira?” Essas duas importantes revistas salientam uma pergunta que continua a atormentar as pessoas nos dias de hoje – a Bíblia é verdadeira? […]

Contribuições da arqueologia

[…] A arqueologia pode trazer diversas contribuições para a Bíblia. Por exemplo, ela pode ser um meio de avaliar reconstruções de textos bíblicos feitas por críticos históricos. Isso quer dizer que a arqueologia pode desmascarar teorias ruins sobre a Bíblia ou, num enfoque mais positivo, pode prover um ponto de vista diferente “contra o qual testar […] uma interpretação [histórico-crítica] dos documentos” (H. Darrell Lance, The Old Testament and the Archaeologist [Philadelphia, PA: Fortress, 1981], p. 66).

Em segundo lugar, a arqueologia pode pro­ver o cenário e o contexto – histórico, cultural, linguístico e religioso – para a redação de materiais bíblicos e os eventos que esses materiais descrevem. Nesse sentido, ela pode, em algumas situações, fornecer esclarecimentos. Além disso, ela pode, às vezes, oferecer evidências corroborativas da existência de povos, lugares e até de eventos específicos mencionados nos escritos bíblicos.

As contribuições da arqueologia podem não ser essenciais para o crente, embora possam ser edificantes para uma fé já estabelecida. Contudo, a arqueologia pode ajudar o descrente que se vê desafiado por afirmações de que eventos e pessoas da Bíblia são totalmente fictícios. Naturalmente, dados arqueológicos não podem, por si sós, resultar em conversões – somente o Espírito Santo pode fazer isso –, mas eles podem fornecer informações que o Espírito Santo poderá usar para impressionar de maneira positiva um indivíduo que esteja em dúvida.

Arqueologia, personagens e eventos bíblicos

Pode ser interessante e útil ver exemplos de contribuições da arqueologia para a compreensão da história bíblica. Desde o começo das explorações modernas do antigo Oriente Próximo, a arqueologia tem verificado continuamente a existência de pessoas mencionadas na Bíblia, como também a ocorrência de eventos bíblicos. A primeira dessas descobertas a apresentar uma relação direta com as Escrituras foi feita em 1843, por Paul Emile Botta (1802-1870), um oficial consular e antiquário francês. Ele estava escavando em Khorsabad, local também conhecido como Dur Sharrukin (castelo de Sargon), no Iraque, e encontrou alguns tabletes cuneiformes, como também baixos-relevos com inscrições. Ao trazer tudo isso para a Europa, um erudito chamado Longperrier conseguiu decifrar o nome Sar-gin em uma das inscrições, identificando esse nome com Sargom, o rei da Assíria mencionado em Isaías 20:1. Provavelmente, esse foi o primeiro personagem bíblico que teve a existência confirmada independentemente da Bíblia.

Em 1846, um clérigo irlandês chamado Edward Hincks conseguiu ler o nome do rei Nabucodonosor II e de seu pai em tijolos de barro que viajantes haviam trazido da Mesopotâmia. Isso confirmou a existência dessa pessoa mencionada no livro de Daniel, como também sua afirmação de ser o grande construtor de Babilônia.

Mais ou menos nessa mesma época, o arqueólogo britânico Austen Henry Layard [… descobriu] o Obelisco Negro (1846). Nele, alguns eruditos puderam identificar os nomes de pessoas mencionadas na Bíblia: Salmaneser III, a mesma pessoa mencionada em 2 Reis 17:3, e Jeú, filho da casa de Onri. Jeú, naturalmente, foi o rei de Israel conhecido pela maneira agressiva de conduzir sua carruagem (2Rs 9:20). [A imagem desse obelisco aparece no início desta postagem.] Por volta de 1853, Layard, com a ajuda de especialistas em epigrafia, pôde afirmar que havia encontrado cerca de 55 governadores, cidades e países men­cionados tanto no Antigo Testamento como nos recentemente desco­bertos textos assírios (P. R. S. Moorey, A Century of Bíblical Archaeology [Louisville, KY:Westminster John Knox Press, 1991], p. 11).

Embora muitos achados adicionais tenham ocorrido de 1850 a 1990, algumas das recentes descobertas têm sido igualmente animadoras. Entre essas estão a provável ossada de Caifás, o sumo sacerdote que oficiou parte do julgamento de Jesus; a descoberta do nome dorei Davi em uma pedra em Tel Dan; o nome de Baruque, o escriba de Jeremias (como também sua impressão digital); e o selo do rei Ezequias. […]

Rebatendo críticas contra a historicidade da Bíblia

A área final em que a arqueologia pode dar sua contribuição é na refutação dos desafios que os críticos têm imposto contra a veracidade da história bíblica. Por exemplo, durante a última parte do século 19, quando o método histórico-crítico veio a ser largamente aceito, um exemplo favorito apresentado para ilustrar uma pretensa imprecisão da história bíblica eram as referências existentes em Daniel a Belsazar como o último rei de Babilônia. Alguns eruditos como Ferdinand Hitzig, em seus comentários sobre Daniel, foram tão longe, a ponto de sugerir que Belsazar era pura invenção da parte do escritor do capí­tulo 5 de Daniel (F. Hitzig, Das Buch Daniel [Leipzig: Weidmann, 1850], p. 75).

Todavia, como se sabe hoje, em 1854, alguns cilindros de barro foram encontrados na antiga cidade de Ur. Sobre um desses cilindros, estava inscrita uma oração em favor do rei Nabonido e de seu filho – Belsazar. Outros documentos foram descobertos depois, os quais indicam que o rei Nabonido preferiu morar em Teima, norte da Arábia, [e não] na capital, Babilônia. Aparentemente, ele deixou o filho, Belsazar, encarregado como o segundo – uma espécie de corregente – do reino. Essa posição designada para Belsazar explica por que ele ofereceu a Daniel a terceira maior posição da nação, em vez da segunda, a qual ele, Belsazar, já ocupava. […]

Outra objeção dos críticos é a aparente presença de anacronismos na Bíblia. Por anacronismo queremos dizer um evento ou fenômeno de um período mais recente da história sendo descrito como se fosse de um período mais antigo. Alguns exemplos apontados como anacronismo incluem as referências a camelos e tendas nas narrativas patriarcais (Gn 12:16). Argumentava-se que os camelos não foram domesticados até cerca de metade do primeiro milênio a.C., bem depois do suposto período patriarcal, no segundo milênio. Semelhantemente, argumentava-se que morar em tendas (como na história de Abraão e sua família) era mais comum no primeiro milênio do que no segundo. As referências às tendas e camelos eram, por­tanto, anacrônicas, e lançavam dúvidas sobre a confiabilidade histórica das narrativas de Gênesis.

Minha pesquisa sobre camelos domesticados demonstra que os críticos estão equivocados. Por exemplo, durante uma excursão ao Wadi Nasib, no Sinai, em julho de 1998, notei um petróglifo de um camelo sendo conduzido por um homem, não muito distante de uma estela de Amenemes II, e algumas inscrições protossinaíticas (alfabeto primitivo). Tomando como base a pátina dos petróglifos e as datas das inscrições ali presentes e em restos arqueológicos naquela vizinhança, verificamos que esse petróglifo de camelo data da Idade do Bronze Posterior, provavelmente anterior a 1500 a.C. (Randall W.Younker, “Late Bronze Age Camel Petroglyphs in the Wadi Nasib, Sinai”, Near East Archaelogical Society Bulletin, v. 42 [1997], p. 47-54). Claramente, os eruditos que têm negado a presença de camelos cometeram a falácia de usar o silêncio como argumento. Não se deveria permitir que tal abordagem lançasse dúvidas sobre a veracidade de nenhum documento histórico, muito menos sobre as Escrituras. […]

Leitura  adicional:

The Archaeological Study Bible. Grand Rapids: Zondervan, 2005. [Publicada em português como Bíblia de estudo arqueológica NVI (São Paulo: Editora Vida, 2013).]

Hoffmeier, James K. Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition. Nova York: Oxford University Press, 1999.

Kitchen, Kenneth A. On the Reliability of the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.

Provan, Iain; Long, V. Philips e Tremper Longman III. A Biblical History of Israel. Louisville, KY: Westminster John Knox, 2003.

Randall W. Younker é […] PhD em arqueologia do Oriente Próximo pela University of Arizona. Ele atua como professor de Antigo Testamento e Arqueologia Bíblica no Seminário Adventista do Sétimo Dia da Universidade Andrews, onde também é o diretor do Instituto de Arqueologia e do Museu Siegfried Horn. Tem dirigido várias séries interdisciplinares de pesquisas arqueológicas de campo em Israel e na Jordânia e é um depositário da renomada American Schools of Oriental Research. Ele coeditou sete livros e publicou inúmeros artigos acadêmicos.

Retirado de Randall W. Younker, “Até que ponto as descobertas arqueológicas confirmam a Bíblia?”, em: A lógica da fé: respostas inteligentes para perguntas difíceis sobre nossas crenças, org. Humberto M. Rasi e Nancy J. Vyhmeister (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 33-41.

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A lógica da fé

Os trechos acima, que representam menos de 4 páginas publicadas, têm o objetivo de divulgar o livro A lógica da fé. Para ler o restante do capítulo, bem como o livro completo, adquira-o no site da Casa Publicadora Brasileira.

Nessa obra, que tem menos de 200 páginas, renomados especialistas adventistas apresentam respostas inteligentes e concisas (8-10 páginas) a 20 perguntas como estas:

  • “Quão confiável é a Bíblia?” (Richard M. Davidson);
  • “Por que eu creio em Deus?” (Clifford Goldstein);
  • “O que há de único em Jesus?” (William Johnsson);
  • “Jesus realmente ressuscitou?” (David Marshall);
  • “Milagres são possíveis?” (Kwabena Donkor);
  • “O Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo Testamento?” (Greg A. King);
  • “Se Deus é bom e todo-poderoso, como pode permitir o sofrimento?” (Stephen Bauer);
  • “Deus conhece o futuro?” (Ranko Stefanovic);
  • “Não são todas as religiões basicamente a mesma coisa?” (Bruce L. Bauer);
  • “Por que sou adventista do sétimo dia?” (Nancy J. Vyhmeister).